A nova matriz

Há dois dias, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou os empresários reunidos no 32.º Fórum Nacional da Indústria que "2012 será marcado pela desintoxicação do juro alto, com a implantação de uma nova matriz baseada no ganho produtivo".

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h10

Com isso, quis dizer que a economia opera agora em outras bases, às quais o empresário brasileiro tem de se adaptar. Isso significa muitas coisas. Por exemplo, que todo o setor produtivo contava até agora mais com o resultado financeiro do que com o operacional.

O negócio do empresário brasileiro, qualquer que fosse, era usado para gerar caixa automaticamente aplicado no mercado financeiro, onde o retorno vinha sendo bem mais promissor do que o proveniente da capacidade transformadora da indústria ou dos ganhos do comércio.

O ministro não deixa de ter forte dose de razão. Os juros altos demais causariam enormes distorções na economia, inclusive essa aí por ele mencionada.

Outra dessas distorções ficou bem mais evidente no comércio. A prática ainda disseminada por todo o Brasil de oferecer ao cliente quatro, cinco ou mais pagamentos "sem acréscimo", mostra que o comércio ganha mais com os juros embutidos no preço à vista do que com o resultado mercantil - a diferença entre o que paga e o que fatura. Em outras palavras, age mais como banco do que como comércio.

Efeito semelhante foi flagrado em balanços dos dois últimos trimestres. Um grande número de empresas acusou prejuízo ou lucro baixo demais, porque deixou de contar com o retorno financeiro de suas aplicações de caixa.

O ministro deixa de ter razão - ou talvez exija demais do setor produtivo - quando cobra mais rapidez do empresário na adaptação do seu negócio à tal nova matriz da economia, sem levar em conta que essa mudança não acontecerá se o governo não fizer a sua parte.

Os generosos ganhos financeiros das empresas ao longo de todos esses anos de juros lá em cima funcionaram como importante compensação "funcional" para os altíssimos custos operacionais enfrentados por quem atua no Brasil - inclusive as bem mais organizadas empresas estrangeiras.

Esses custos são excessivos. Estão enfeixados pelo rótulo mais conhecido como custo Brasil. E aí estão compreendidos a carga tributária cada vez mais insuportável; a infraestrutura precária e cara demais; o excesso de burocracia; os elevados encargos trabalhistas; a baixa qualidade do ensino; a energia elétrica a preços que inviabilizam segmentos de energia intensiva; a Justiça lenta e, muitas vezes, corrupta; a ausência de reformas...

Os ministros da área econômica todos os dias repetem que a produção está sendo desonerada, que os investimentos para expansão da infraestrutura estão caminhando, que a reforma tributária vem vindo aí e que outros gastos estão sendo derrubados... Mas é tudo muito lento, muito insuficiente ou, como disse na semana passada a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, sujeito aos atrasos que, no Brasil, estão na "regra do jogo".

Ou seja, ministro Mantega, não é apenas a economia que demora a se adaptar à nova matriz macroeconômica. A demora maior é do próprio governo.

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