Luiza Sigulem/Editora Sextante
Luiza Sigulem/Editora Sextante

'A nova metodologia de estudo histórico é filha do computador'

Para o escritor Jorge Caldeira, o cruzamento de dados digitalizados mudou a visão sobre a evolução econômica do País

José Fucs, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2018 | 05h00

O jornalista e cientista político Jorge Caldeira levou cerca de dois anos para escrever o livro História da Riqueza no Brasil, sem contar o tempo de pesquisa. Nesta entrevista ao Estado, Caldeira, de 62 anos, fala sobre o processo de produção da obra e diz como o uso da econometria no estudo histórico levou à “derrubada” das versões propagadas pelos autores clássicos sobre a evolução da economia do País.

Estado: Como surgiu a ideia de escrever esse livro?

Jorge Caldeira: Esse livro na verdade é o resumo de 40 anos de pesquisa. As pesquisas foram feitas antes e publicadas de forma dispersa em outros livros que escrevi. A ideia foi juntar o material num todo coerente, abrangendo 500 anos de história e incorporando as novas metodologias de pesquisa histórica baseadas na econometria e na antropologia. 

Como funciona a metodologia de pesquisa com base na econometria?

Ela é filha do computador. Antes, como você fazia pesquisa econômica? Os historiadores liam documentos, um por um, e inter-relacionavam o que podiam. Hoje, para estudar a história econômica você insere centenas de milhares, milhões de documentos no computador e usa as ferramentas digitais para cruzar os dados. 

++ Uma releitura da história do Brasil​

O sr. poderia dar um exemplo prático da diferença entre essa nova metodologia e o método de pesquisa tradicional?

Uma coisa é você estudar a história econômica de São Paulo lendo um documento do século 17 de cada vez, como se fazia antes. Outra coisa é fazer o que eu fiz com a biografia do padre Pompeu de Almeida, que era um paulista do século 17, para a qual digitalizei 500 mil páginas de documentos e pesquisei dentro desse conteúdo usando programas de computador. Com o cruzamento de dados, você pode obter um número infinitamente maior de informações do que um pesquisador obtinha pelos métodos tradicionais. Os resultados interpretativos são completamente diferentes. Essa é a mudança central. Esse é o padrão de história econômica hoje. 

Desde quando se aplica essa metodologia no Brasil, para a análise da nossa história?

Ela começou com casos pontuais há 40 anos. Agora, o que este livro tem de realmente novo é que ele é, efetivamente, a primeira tentativa de analisar toda a história do Brasil, os 500 anos, com base nos novos dados, nas novas metodologias. 

No livro, o sr. “derruba” várias ideias dos autores clássicos sobre a história econômica brasileira. É um verdadeiro myth buster (destruidor de mitos)...

Não é uma questão de derrubar mitos, nem de derrubar as ideias dos clássicos. Foi a condição do conhecimento, com a evolução da tecnologia, que mudou. Os clássicos não tinham como ver isso. Eles não tinham computador, nem banco de dados. Só podiam trabalhar nos limites permitidos pela documentação. Não podiam escrever, por exemplo, sobre a escravidão pegando a média de escravos por proprietários em um censo. Então, eles diziam que predominava o latifúndio no Brasil. Mas, quando você vai ver nos censos, havia latifúndio, sim, mas ele reunia apenas um centésimo da população escrava.

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