A nova riqueza nasceu nas garagens

No final do século 20 ocorreu uma aceleração inédita no ritmo das inovações. Nas tecnologias de informação, os resultados do desenvolvimento tecnológico se espalharam pelo mundo com uma dinâmica surpreendente. O mais marcante foi que parte significativa das inovações surgiu em startups de jovens que trabalhavam em suas "garagens" ou em núcleos de universidades, e não em grandes corporações. Claro que estas também inovaram, especialmente em segmentos que demandavam longos períodos de maturação das pesquisas e/ou grandes volumes de recursos, como, por exemplo, as indústrias de medicamentos, alimentos, hardwares, aeroespacial ou de equipamentos pesados.

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2015 | 01h55

Mas a grande revolução na comunicação entre pessoas, em escala mundial, não foi feita pelas grandes indústrias de entretenimento e comunicação, mas, sim, pelos jovens que lançaram aplicativos como o Facebook, Instagram ou WhatsApp. Da mesma forma, as grandes mudanças nos hábitos de compra de bens e serviços não foram conduzidas por quem os produzia, mas, sim, por quem inventou os revolucionários aplicativos de compras e fidelização. A entrada no século 21 nos mostrou - assim como ocorreu no começo do século 20 - um admirável mundo novo com graus jamais imaginados de comunicação entre pessoas, diversidade de aspirações e integração mundial.

Como talentos são relativamente bem distribuídos, jovens inovadores e startups surgiram em todas as partes do mundo. Mas é evidente que levaram uma enorme vantagem os países que souberam acolher, estimular, organizar e financiar incubadoras de startups - e estimular seus talentos. Lógico que ficaram para trás aqueles que dificultaram o empreendedorismo, criaram barreiras burocráticas, tributaram antes da partida e não compreenderam bem para onde caminhava este mundo novo.

Nas universidades, os núcleos de pesquisa que mais contribuíram com conhecimento e inovações se organizaram naquelas que, de forma pragmática, tiveram uma relação mais estreita com as necessidades do mundo real das cadeias produtivas. De modo geral, as universidades que se mantiveram "puras" na relação com o mundo empresarial e o mercado não geraram conhecimento e inovações relevantes para as grandes mudanças.

No Brasil, com as exceções de praxe, as universidades públicas e privadas não deram contribuições relevantes para o que estava ocorrendo no mundo. As primeiras, sobrevivendo de corte em corte (e de greve em greve), nunca deixaram de olhar para o próprio umbigo. As segundas estiveram mais preocupadas em "descolar uma grana fácil" do governo.

Sem uma educação básica decente e contemporânea e com universidades obsoletas, dificilmente o Brasil teria condições de se posicionar bem no quadro mundial. Lógico que já tivemos centros de excelência na pesquisa básica e aplicada, conduzidos tanto pelo governo quanto por entidades privadas. A Embrapa, o Centro Tecnológico da Aeronáutica, o IPT de São Paulo, por exemplo, desenvolveram atividades importantes de suporte ao fortalecimento econômico do País. Mas eram outros tempos e lá se vão algumas décadas em que uma conjunção de fatores favoráveis permitiu que isso acontecesse.

O economista Roberto Campos dizia que "mais importante que as riquezas naturais são as riquezas artificiais da educação e tecnologia". No entanto, até hoje se vive no Brasil com a ideia vinda dos tempos coloniais quanto ao privilégio de termos recursos naturais abundantes. Isso nos asseguraria um passaporte para o desenvolvimento.

E assim vamos esgotando há séculos os ciclos baseados em recursos naturais: pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café e soja, devastando tudo e nos afastando das oportunidades abertas pelo conhecimento científico e tecnológico. Empenhamos até os ganhos imaginados de um ciclo futuro, como foi feito, de forma grotesca, com o petróleo do pré-sal. A indigência da nossa educação básica seria redimida, em breve, pela riqueza proveniente do esforço da Petrobrás! Para depois descobrirmos que as riquezas da empresa já tinham outro destino...

*Josef Barat é economista, consultor de entidades públicas e privadas, e coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo 

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