‘A ORDEM ERA ABRIR A MATA E PLANTAR ALGUMA COISA’

‘A ORDEM ERA ABRIR A MATA E PLANTAR ALGUMA COISA’

Agricultor Elido Trevisan defende o aumento do plantio de cacau como forma de reflorestamento

Renée Pereira, Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 05h00


O pequeno trator Agrale vermelho na beira da estrada era a senha para chegar ao Sítio Lindo Dia, no km76 da Transamazônica. Sem placas de sinalização, essa era a única forma de não passar batido pela fazenda de cacau do senhor Elido Trevisan, um gaúcho simpático de Tenente Portela, que virou um dos produtores de cacau mais eficientes do Oeste do Pará. Defensor do aumento do plantio de cacau como forma de reflorestamento da região, ele tem 80 hectares de área plantada, sendo 70 de cacau e 10 de cupuaçu.

Trevisan chegou a Medicilândia com 18 anos de idade, quando o município ainda era uma agrovila dentro do projeto do governo federal de colonização da Amazônia. Os lemas “integrar para não entregar” e “Amazônia, terra sem homens para homens sem terra” caíram como uma luva para convencer a mãe a deixar o Sul e ir para o Norte. “O maior desejo dela era ter terra suficiente para manter todos os filhos juntos”, diz o agricultor.

A bordo de um caminhão F-250, “novinho em folha”, a família atravessou o Brasil numa distância de 3.581 quilômetros de estrada durante 12 dias. A Transamazônica ainda estava sendo aberta pelos militares e o acesso era complicado. A região não tinha recurso nenhum, mas ainda assim a família se adaptou bem ao novo lar, que surgia sob a cultura do desmatamento. “A ordem era abrir a mata e plantar alguma coisa. Começamos com arroz e feijão. Em 1976, consegui as primeiras sementes de cacau”, conta Trevisan, que também já plantou cana e criou gado.

No ano seguinte, financiado pelo Banco do Brasil, plantou 10 hectares de cacau. Daí em diante, apesar dos altos e baixos provocado pelo preço da commodity, nunca mais parou de produzir. “Quando o preço está ruim, muita gente abandona a lavoura. Eu nunca descuidei da minha, pois depois o trabalho é dobrado.” Foi com essa filosofia que ele se tornou um dos agricultores com maior produtividade do País.

Chegou a bater a marca de 3 mil quilos por hectare - sem dúvida uma das maiores do mundo. “Mas aí veio a vassoura de bruxa e meus indicadores caíram abaixo de mil quilos. Entrei em desespero”, lembra Trevisan. Mas, em vez de abandonar a cultura, ele optou por fazer cursos de especialização para melhorar a sua produção. “Hoje consigo tirar 1.500 quilos por hectare. Mas, se tivéssemos mais crédito e apoio, sem dúvida esse número mais que dobraria.” O agricultor diz que o setor vive uma crise de assistência técnica: “Os pesquisados (da Ceplac) estão se aposentando e não temos visto uma reposição de novos agrônomos.”

Caminhando pela lavoura de cacau e de cupuaçu, ao lado da mulher Leodete Decker, uma catarinense da cidade de Modelo, Trevisan contempla o resultado de anos de trabalho e se orgulha de feito o caminho inverso ao do desmatamento. Como o cacau precisa de um pouco de sombra, árvores, como tatajuba, ipê roxo e amarelo, cedro e teca, são plantadas no meio da lavoura. “O governo precisa assumir que a plantação da cacau é a melhor forma de reflorestamento.”

Mais conteúdo sobre:
cacauamazônia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.