Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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A outra face da inflação que precisa ser controlada pelo Copom

O Banco Central precisará mostrar que pode agir para evitar uma guinada perversa da inflação

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2021 | 04h00

A forte alta nos preços de matérias-primas – como aço, ferro, soja e petróleo – e a acentuada desvalorização do real ante o dólar foram os grandes culpados pela disparada nos preços de atacado, o que acabou levando a inflação ao consumidor subir bem mais do que se imaginava e deflagrando um debate entre analistas e Banco Central sobre o quão transitório seria essa pressão inflacionária. 

No pano de fundo desse debate, está o ritmo e a magnitude do atual ciclo de aperto monetário, iniciado pelo BC com uma alta de 0,75 ponto porcentual, para 2,75%, na reunião do Copom no mês passado. 

Enquanto a natureza do recente repique inflacionário for resultado basicamente da alta nos preços das commodities em reais, muitos do mercado acreditam que o Copom não precisaria ir tão longe nem pesar a mão para retirar todo o estímulo monetário em vigor ainda em 2021. A mediana das estimativas de analistas, conforme a pesquisa Focus, aponta para uma taxa Selic a 5,0% no fim do ano. 

Por outro lado, para quem teme que a esperada retomada da economia brasileira na segunda metade deste ano, com o avanço da vacinação contra a covid-19 no País, possa alterar a natureza da inflação, com maior pressão dos preços no setor de serviços, o Copom deveria agir preventivamente e subir os juros de forma acelerada. Nesse caso, há quem espere que o Copom eleve a Selic para até 6,5% no fim do ano. 

Em 2020, por exemplo, os preços de produtos industriais, de alimentos e combustíveis responderam por 72% da inflação ao consumidor no ano, que foi de 4,52%, embora esses três componentes tenham um peso de apenas 44% na cesta de itens do IPCA. São justamente os produtos industriais, alimentos e combustíveis que melhor refletem a pressão dos preços em reais das matérias-primas. 

Enquanto o índice cheio foi de 4,52% em 2020, a média ponderada de alimentos, combustíveis e industriais registrou alta de 7,42% – só os preços de alimentos subiram 18,15%. Já a inflação de serviços foi de apenas 1,80% no ano passado. 

A situação não podia ser mais diferente do que aconteceu com a inflação em 2012, quando o Copom reduziu a Selic para a mínima histórica até então, de 7,25%. Naquele ano, o índice cheio da inflação ao consumidor foi de 5,84%, mas os preços de serviços – refletindo uma pressão na demanda – subiram 7,78%, enquanto a média ponderada dos preços de alimentos, produtos industriais e combustíveis registrou alta de 2,28%. 

“Se a natureza da inflação virar para uma inflação de serviços, é muito mais difícil para controlar, exigindo um nível bem maior de juros reais para quebrar a dinâmica dos preços”, diz o gestor e sócio fundador da MZK Investimentos, André Kitahara. “É preciso evitar que a alta nos preços da gasolina, do feijão e do arroz contamine a inflação do barbeiro.” 

Kitahara explica que a natureza da inflação causada por um choque de commodities em reais é mais volátil, ou seja, na mesma velocidade e magnitude que sobe, ela pode cair. “Já a inflação de serviços traz muito mais inércia: se o cabeleireiro subiu seu preço ontem, a chance de voltar a subir amanhã é maior.” 

Assim, o trabalho do BC – e o custo da política monetária – para ancorar as expectativas inflacionárias quando a pressão vem dos preços de serviços (ou itens “não comercializáveis”) é muito maior do que com um choque de commodities em reais, como o atual. 

“Até o momento, a inflação de serviços não tem sido o problema, pelo contrário: vem segurando a inflação cheia”, alerta Gustavo Menezes, outro sócio da MZK Investimentos. “Mas quando se combina a alta das commodities em reais com a perspectiva de retomada mais forte na economia mundial e no Brasil no segundo semestre, o BC tem que agir em dois fronts: não só atacar a pressão corrente, mas também se antecipar ao horizonte de maior demanda à frente para não colocar em risco a ancoragem das expectativas para 2022." 

Por enquanto, a mediana das estimativas de inflação para 2022 segue ao redor da meta, de 3,50%. Para manter essa expectativa sob controle, o BC precisará ter credibilidade e mostrar que pode agir para evitar que a natureza da inflação dê uma guinada perversa.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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