A outra parte do ajuste
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A outra parte do ajuste

A balança comercial segue com ótimo desempenho e pode ajudar a reverter o déficit em transações correntes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2016 | 21h00

Sem grandes surpresas, a balança comercial continua tendo ótimo desempenho neste ano. Nos sete primeiros meses, as exportações foram US$ 28,2 bilhões superiores às importações e contribuem decisivamente tanto para a derrubada do déficit em transações correntes (fluxo de moeda estrangeira menos o de capitais) quanto para a obtenção do ajuste da economia.

Ainda assim, as exportações deste ano se mantêm 5,6% mais baixas do que as dos primeiros sete meses do ano passado. A maior contribuição para a derrubada do déficit externo está sendo dada pelo forte mergulho das importações, de 27,6% até julho. (Os resultados de julho – superávit de US$ 4,6 bilhões – foram influenciados pela exportação de uma plataforma de petróleo, de US$ 923 milhões, fato aleatório.)

O desempenho do comércio exterior do Brasil vem sendo influenciado, tanto positiva como negativamente, por três principais fatores. O primeiro deles é a queda do consumo interno, em consequência da recessão e da redução de renda, que produziu não apenas o forte tombo das importações, mas, também, deixou excedentes (não consumidos) que foram destinados à exportação. Se a população come menos carne, podem ser exportados mais soja e mais milho, a base das rações animais.

O segundo fator, que desta vez pesou negativamente nas exportações, é a queda em dólares das cotações das commodities, especialmente das minerais. Os produtos básicos pesam cerca de 45% nas exportações brasileiras. Assim, qualquer oscilação de preços tem impacto importante nos resultados. A principal causa desse enfraquecimento das cotações é o baixo desempenho das economias maduras, especialmente as da Europa e do Japão.

O terceiro fator que contribuiu desta vez para forte melhora do comércio exterior foi a desvalorização do real (alta do dólar ao longo de 2015) que deu mais competitividade ao produto brasileiro lá fora e ajudou o resultado do primeiro semestre. Há alguns meses já não dá para contar com o mesmo efeito porque as cotações do dólar voltaram a deslizar. Só nestes sete primeiros meses de 2016 a queda foi de 18,1%.

Ainda assim, se as atuais condições se mantiverem, é bastante provável que o déficit em transações correntes, de US$ 8,4 bilhões no primeiro semestre deste ano, seja revertido ainda no primeiro trimestre de 2017. A balança comercial terá ajudado nisso com um superávit entre US$ 51 bilhões e US$ 55 bilhões. O mercado aferido pela Pesquisa Focus, do Banco Central, espera, para 2016, um superávit comercial de US$ 51,10 bilhões.

Mas é provável que alguma coisa mude na atual relação de forças. A principal tensão que pesa hoje sobre o comportamento da balança comercial é a tendência a nova valorização do real. Se a presidente Dilma for definitivamente afastada em consequência da aprovação do impeachment e a atual orientação da política econômica vier a ser sacramentada, é provável que mais recursos externos afluirão. Se isso se confirmar, será difícil impedir novo mergulho do dólar em reais.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução do faturamento da ind ústria.

Sinais positivos

Quando rareiam, as notícias boas são mais valorizadas. E, nesta segunda-feira, houve duas. A primeira, já do mês de julho, mas ainda preliminar, indicou aumento de 13,3% nas vendas de veículos novos em relação a junho. A outra foi a do levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que acusou aumento de 2% no faturamento de junho sobre maio. São dados positivos que podem indicar início de recuperação. Mas ainda lhes falta sustentação. É esperar para ver.

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