Justin Lane/EFE - 4/6/2020
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A pandemia e o aumento da desigualdade

A parcela mais pobre da população é a mais afetada pela pandemia, e isso desencadeia consequências para todos

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2020 | 18h36

A pandemia produz uma sensação de sufoco. Mas sufoca incomparavelmente mais a parcela da população mais pobre. E isso desencadeia graves consequências para todos, também para os ricos e para as classes médias.

Essa pode ser uma das razões por que nas principais cidades dos Estados Unidos e em outras metrópoles do mundo tanta gente venha se manifestando em protesto contra a violência cometida por um policial do Estado de Minneapolis que tirou a vida de mais um negro, George Floyd. Também, como ele disse pouco antes de morrer (“não consigo respirar”), ficou muito mais difícil e mais inseguro buscar oxigênio para o sustento da família.

A renda vai desabando em todos os países. A expectativa dos analistas é de que, neste segundo trimestre, o PIB da primeira economia do mundo, os Estados Unidos, caia cerca de 30% em termos anuais. Também por lá, o desemprego pode saltar para acima dos 25% da força de trabalho, o recorde negativo obtido ao longo da Grande Depressão.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Os mais atingidos nos Estados Unidos, relata-nos o economista Mohamed A. El-Erian na revista Foreign Affairs de 2 de junho, são os trabalhadores informais e as mulheres, principalmente as integrantes das minorias étnicas (negras e hispânicas).

O cenário parece ainda mais desolador no Brasil, onde o tombo do PIB, o desemprego estrutural e a desorganização da economia são muito maiores. As ocupações informais, os bicos e as virações são ainda mais atingidos, porque a economia está paralisada, os negócios não saem, o consumo vai sendo adiado e, nessa paisagem, não há para onde ir, de modo a garantir certo sustento. A distribuição do auxílio social pelo governo, de R$ 600 por CPF, ainda segura alguma coisa, mas ninguém sabe até quando e a que custo para as contas públicas.

Até mesmo as defesas corporativas contra os efeitos do isolamento social prejudicam ainda mais os mais pobres. A redução de salário com proporcional redução da jornada de trabalho e garantia de estabilidade beneficia apenas os que já estavam empregados. O trabalho em casa (home office) é um recurso que não pode ser aproveitado por mais de um terço dos trabalhadores, conforme estudo feito por pesquisadores da Universidade de Chicago. E beneficia os bem remunerados profissionais liberais e funcionários de maior renda do setor financeiro.

Os cenários pós-pandemia sugerem que também na recuperação os prejuízos para os mais pobres serão maiores. A economia será reerguida com maior digitalização do comércio e dos serviços bancários, com aumento da ocupação diretamente de casa e com maior emprego da robotização pela indústria. São soluções altamente poupadoras de mão de obra. Tendem, portanto, a reduzir as oportunidades de trabalho dignamente remunerado.

A história mostra que, em situações assim, o agravamento das condições sociais tende a vazar para a política. Se não houver resposta convincente da sociedade, pode colocar em perigo as instituições democráticas. Por praticamente todo o mundo ocidental, as classes médias já vinham demonstrando indignação e impressionante prontidão para atender a apelos de populistas e demagogos.

As manifestações que agora se realizam pelo mundo mostram que o sufoco geral pode vir a se tornar criadouro de autoritarismos, protecionismos de toda ordem e xenofobia.

E há o fator bumerangue, que recai sobre as empresas. Menos emprego, menos renda e menos salário são, também, menos mercado e menos faturamento. Portanto, têm impacto sobre a sobrevivência de segmentos do setor produtivo. Para obterem gás para sobrevivência ao longo dessa temporada de quebra de caixa, muitas empresas se endividaram. E, todos sabemos, endividamento excessivo sabota o investimento e o futuro.

Desde já, os dirigentes mais responsáveis parecem preocupados com a obtenção de soluções. O problema é que nada se consegue fazer sem mais injeção de recursos, numa situação em que os cofres públicos estão mais do que espremidos.

E não se podem menosprezar dois efeitos colaterais em geral adversos: maior intervenção do Estado na economia e na política e aumento compulsivo da carga tributária. Uma saída é mais do que urgente. Como observa o professor El-Erian, nessa matéria, a acumulação de problemas sem solução tende a se autoalimentar e a tornar uma reversão cada vez mais difícil e mais politicamente custosa.

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