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Celso Ming
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A pandemia e o déficit do ensino

O retorno às aulas já será enorme problema de política pública

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 19h36

A concentração de renda é uma chaga social e uma persistente ameaça à estabilidade das instituições democráticas. Também é uma limitadora do desenvolvimento das empresas, na medida em que uma população de baixa renda também impede o crescimento do consumo.

No entanto, se a renda cresce, mesmo quando a renda da maioria cresce menos, a insatisfação social tende a perder força, porque se espraia a percepção de que, apesar de tudo, a vida melhorou. E, nessas condições, os movimentos populistas que exploram a desigualdade também perdem força. Os problemas se multiplicam quando a esperança se esvai na medida em que as oportunidade se estreitam. 

Embora as constituições digam que todos são iguais perante a lei, ao nascer as oportunidades dos indivíduos já são naturalmente desiguais, seja por limitações geográficas, seja pelas condições sociais. Um bebê na África subsaariana terá quase sempre muito menos oportunidades de desenvolvimento pessoal do que terá um bebê em região avançada, porque começa a vida num país pobre e mal resolvido. Em qualquer lugar, a população de mais baixa renda também começa a batalha da subsistência em piores condições.

Para a superação da desigualdade de oportunidades, não basta que aumente a oferta de postos de trabalho. É preciso, também, assegurar igualdade nas condições de ensino e educação. E, já não dá para esconder, esse é o setor que mais vem sendo solapado pela pandemia nos esforços pela obtenção de melhores condições de oportunidades.

Crianças de famílias de renda mais alta também foram obrigadas a permanecer isoladas em suas casas. Só que puderam compensar a ausência física das escolas com aulas e avaliações digitais, repassadas por meio da internet. Enquanto isso, as crianças mais pobres, que não têm nem computador nem internet, não tiveram esse recurso. Na prática, estão perdendo o ano e muita coisa mais.

O retorno às aulas já será, por si só, enorme problema de política pública. Não poderá ser uniforme e terá necessariamente de ser gradual e de levar em conta a evolução da doença em cada cidade e as condições reais tanto de professores quanto de alunos. 

As autoridades do Ministério da Educação (MEC) examinam agora a hipótese de aprová-los em massa por decreto, porque será preciso abrir as vagas para as turmas que começarão no ano que vem. No entanto, o déficit de aprendizagem será enorme, ainda que, em algumas localidades, as reposições possam ser adequadas.

As crianças de famílias mais pobres já vêm passando por carências alimentares, porque já não podem contar com a merenda escolar que lhes é importante fonte de sustento. Agora enfrentam quebra da renda de suas famílias em consequência do desemprego e da redução de salário e ficarão para trás também na sua aprendizagem escolar.

Muito provavelmente, esse será também novo fator de evasão escolar. Se nas universidades privadas 265 mil alunos abandonaram ou trancaram matrícula nos cursos de graduação, conforme informa o sindicato das mantenedoras (ver no Estadão de 6 de julho), o que não estará para acontecer no ensino fundamental e no ensino médio mantidos pelo setor público?

Em sua edição de 15 de julho, matéria do diário El Mundo, de Madri, com base em levantamentos da Unesco, o organismo das Nações Unidas voltado para a Educação, informa que no mundo 1,6 bilhão de crianças ficaram sem aulas durante a pandemia. A maioria delas não poderá contar nem mesmo com reposição das aulas porque os países pobres não dispõem de recursos orçamentários para enfrentar as despesas extras com ensino.

Enfim, está enormemente equivocado quem acha que a pandemia é uma espécie de foice democrática, que ceifa tanto ricos como pobres. Os ricos também enfrentam isolamento social, mas se defendem melhor. Os pobres que sobreviverem não só tendem a ficar mais pobres, mas, também, verão se fechar portas e janelas das oportunidades de melhora de vida.

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