A pantomima grega da Europa

Nas primeiras horas da manhã de terça-feira, os líderes europeus concluíram seu mais recente acordo de resgate envolvendo a Grécia.

Barry Eichengreen, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h09

Apesar de contar com muitas peças móveis, o novo acordo ainda carece de uma solução crível para a crise.

Com a economia grega apresentando uma contração mais acelerada do que o esperado e o dinheiro das privatizações aquém do esperado, não havia como fazer com que a conta do acordo de resgate do ano passado fechasse.

Para acertar as pontas, os detentores de obrigações concordaram em aceitar um prejuízo maior na troca "voluntária" de papéis da dívida que deve ser concluída até 20 de março. (Seus representantes fecharam o acordo; só o tempo dirá se os detentores de obrigações representados por eles vão honrar o combinado.)

Os governos europeus concordaram em reduzir os juros sobre o empréstimo de resgate em 50 pontos-base. De sua parte, a Grécia concordou em promover novos cortes no orçamento, em receber um supervisor internacional permanente em Atenas e em aprovar novas leis que concedem prioridade total ao pagamento dos encargos da dívida do país.

Na melhor das hipóteses, a dívida do governo grego será estabilizada na casa de 120% do PIB do país em 2020. Mas é improvável que a Grécia possa contar com esse cenário. O programa supõe que a economia grega sofrerá este ano uma contração de apenas 4%, pouco mais da metade da contração de 7% registrada no último trimestre. Supõe que a economia poderá então se estabilizar em 2013 e crescer saudáveis 2% em 2014. Se o crescimento não vier conforme o esperado, então a dívida crescerá explosivamente e o programa de resgate ruirá.

Nos próprios termos, esta previsão de crescimento é implausível.

A Grécia está em queda livre desde o fim de 2008. O ritmo de contração tem acelerado quase continuamente. O volume de exportações aumentou um pouco, mas ainda é insuficiente para compensar o efeito do colapso da demanda doméstica. O desemprego de 20% minou o apoio aos partidos políticos responsáveis pelas políticas atuais, e a grande incerteza em relação ao tipo de governo que será formado na Grécia continua a afastar os investimentos. Além disso, como o resgate confere aos papéis da dívida grega em poder de BCs estrangeiros mais valor do que ao dinheiro novo, a perspectiva de novos investimentos estrangeiros na Grécia é quase nula.

O melhor que podemos dizer a respeito do novo acordo é que ele ajuda a ganhar tempo - e ganhar tempo se tornou a resposta europeia tradicional à crise. Mas não muito tempo: talvez até abril, quando os gregos vão eleger um novo governo ou, na melhor das hipóteses, até o fim do ano, quando o país não estiver mais apresentando déficits orçamentários compostos, principalmente, pelo pagamento de encargos.

Mais uma vez, a Europa precisa urgentemente de um plano B. A esta altura, restam apenas duas alternativas: a saída da Grécia da zona do euro ou um Plano Marshall para o país.

O abandono do euro possibilitaria que a Grécia voltasse ao dracma, desvalorizando a moeda em relação ao euro e melhorando a competitividade de suas exportações. A ideia é imitar a América Latina dos anos 80, quando a desvalorização da moeda foi usada para ajudar a região a escapar de uma crise de endividamento. Mas, na prática, a Grécia seria menos beneficiada por uma estratégia como esta. Comparada à América Latina, a Grécia não exporta muito além de serviços turísticos. O país não produz químicos, nem maquinário, nem commodities. Dar um impulso inicial às exportações numa economia como esta é algo mais fácil de falar do que fazer.

Além disso, embora a dívida dos governos latino-americanos fosse em dólar, a maior parte das dívidas do setor privado era denominada na moeda local. Como resultado, a desvalorização da moeda não precipitou uma falência generalizada nas corporações locais. Em comparação, a dívida das corporações gregas é em euros. Assim sendo, a depreciação do novo dracma em relação ao euro levaria à falência do setor corporativo grego e à quebra dos bancos. As tentativas de conversão das dívidas para dracmas levaria o país e suas empresas a passarem anos emaranhados em litígios. Como resultado desta incerteza, não há como produzir na Grécia uma retomada tão rápida do investimento estrangeiro quanto a observada na América Latina a partir de 1991.

O resultado seria uma catástrofe para a Grécia. E seria uma catástrofe para a Europa, já que todos os olhares se voltariam para Portugal, cuja sustentabilidade da dívida é também dúbia. Proteger Portugal e o resto do sul da Europa do contágio grego seria um desafio caro.

Mas o fato de a saída da Grécia ser catastrófica para o país e extremamente custosa para a Europa não é garantia de que isso não possa ocorrer. Ao contrário: ausente uma alternativa, é quase certo que isso ocorrerá.

O que nos leva à única opção restante: um Plano Marshall europeu. Para estabilizar sua atividade econômica, aumentar as exportações e trazer esperança aos cidadãos, a Grécia precisa de um programa plurianual para a reestruturação de sua economia. Alguns observadores sugeriram que isso deveria ser financiado e administrado pelo Fundo Monetário Internacional, por meio do seu Dispositivo para o Crescimento e a Redução da Pobreza, projetado para fomentar o ajuste estrutural em países pobres. Mas fazer com que o FMI se ocupe durante uma década com um país de renda média como a Grécia não parece algo praticável, e menos ainda desejável. Melhor seria se outros países europeus se inspirassem no Plano Marshall, implementado após a 2.ª Guerra Mundial, e oferecessem à Grécia um plano plurianual de auxílio estrangeiro, sujeito a condições.

O foco dos esforços até o momento tem sido a reestruturação do setor público grego: diminuir o funcionalismo público e instalar novos computadores para rastrear pagamentos e impostos devidos. Mas a reestruturação do setor privado é ainda mais urgente e desafiadora. A Grécia precisa investir em infraestrutura para impedir que os importadores encontrem mais facilidade para trazer legumes do norte da Europa do que do outro extremo do país. Precisa desenvolver programas de aprendizado para o treinamento de mais mecânicos e reestruturar suas universidades para formar mais engenheiros. O país precisa simplificar e modernizar a gestão de suas grandes empresas. Precisa da colaboração entre o governo e o setor privado para identificar os principais gargalos que impedem o crescimento.

Esses pontos eram precisamente o foco do Plano Marshall original. Os Estados Unidos ofereceram à Europa o financiamento necessário para investimentos fundamentais na infraestrutura - a reconstrução do Porto de Roterdã, por exemplo. O plano exigia que os governos europeus cooperassem com o setor privado na definição das prioridades para a alocação dos recursos. O auxílio era enviado trimestralmente, mas somente se os governos europeus cumprissem suas metas fiscais e monetárias. Administradores de nível intermediário das principais corporações americanas foram enviados em missões de assistência técnica para aconselhar seus pares europeus quanto à melhor forma de reestruturar e modernizar suas operações.

Um Plano Marshall para a Grécia exigiria profundas mudanças na retórica e na atitude do norte da Europa, que preferiu culpar a Grécia em vez de ajudá-la. Um programa plurianual de auxílio estrangeiro também seria caro. O que o norte da Europa precisa entender - e rápido - é que a única alternativa restante, ou seja, o abandono do euro por parte da Grécia, seria ainda mais cara. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL    

É PROFESSOR DE ECONOMIA, CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, EM BERKELEY

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