Ruben Sprich/Reuters
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A parábola de Paul

A Unilever é o maior experimento do mundo em samaritanismo corporativo

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2017 | 05h00

Paul Polman comanda a Unilever, sétima maior empresa da Europa, com valor estimado em US$ 176 bilhões, mas não é um mandachuva típico. O holandês, que chegou a pensar em ser padre na juventude, acredita que vender xampus mundo afora pode ser uma vocação elevada e tem horror à doutrina anglo-saxã segundo a qual o principal objetivo de uma empresa é enriquecer seus acionistas. Na opinião de Polman, as empresas devem ser administradas de maneira sustentável, coisa que implica realizar investimentos, pagar salários justos aos funcionários e fabricar produtos saudáveis, com o menor dano possível ao meio ambiente. A longo prazo, isso seria mais benéfico para os lucros: sociedade e acionistas não precisam estar em conflito.

A doutrina de Polman foi submetida a um teste em fevereiro, quando a Unilever recebeu uma oferta de compra da Kraft-Heinz, fabricante de ketchup controlada por Warren Buffett e pelo 3G Capital, fundo conhecido por cortar brutalmente os custos das multinacionais que adquire. Se a Unilever vê a si mesma como boa cidadã corporativa, a seus olhos a Kraft deve ser um americano voraz, que não está nem aí com o planeta, acumula uma montanha de dívidas, tem pouquíssima presença estrangeira e se automutila com a obsessão pela redução de custos.

A Kraft acabou desistindo do negócio, mas o embate entre as duas ideologias não foi decidido. A Unilever parece ter se sentido pressionada a adotar medidas ao estilo do 3G. Em abril, se comprometeu a elevar margens operacionais em 3,6% até 2020, realizar recompra de ações e abandonar o negócio de margarinas. Os investimentos em marcas e fábricas, que vinham crescendo nos últimos anos, devem permanecer estáveis em 2017.

Terminada a “quarentena” imposta pela legislação britânica, agora a Kraft pode fazer nova oferta. Inspirando-se no 3G, alguns fundos de hedge ativistas estão atrás de Nestlé e Danone, concorrentes da Unilever. Polman provavelmente deixará o comando da companhia em dois anos (ele quer que seu sucessor seja alguém da Unilever), o que faz com que alguns se perguntem se sua visão é realmente coerente e tem como perdurar.

A resposta a tal pergunta depende da que for dada a duas outras indagações: a Unilever consegue criar valor para os acionistas ao mesmo tempo em que tenta ser socialmente virtuosa? O mercado de controle corporativo funciona como deveria, de modo a permitir que uma empresa desse tipo tenha condições de sobreviver? Comecemos pela questão da virtude. Desde 2009, quando Polman tornou-se CEO, as emissões de poluentes, o consumo de água e a geração de lixo recuaram, respectivamente, 43%, 38% e 96% por unidade de produção. Os investimentos, incluindo pesquisas e marketing, que correspondiam a 18% do faturamento, agora correspondem a 20%. O recolhimento de impostos aumentou de 25% para 30% do lucro subjacente (que exclui despesas não recorrentes).

Por outro lado, Polman não tem sido tão benévolo com os funcionários quanto seria de se esperar. A Unilever continua com 170 mil funcionários (a Kraft eliminou 20% de seus postos de trabalho de 2013 para cá), mas os salários, que correspondiam a 46% do faturamento da empresa em 2009, agora representam 39%. Além disso, embora a remuneração em dólar por empregado tenha permanecido estável, os principais executivos da companhia passaram a ganhar, em média, 24% a mais. No ano passado, Polman pôs no bolso US$ 9 milhões, crescimento de um terço em relação ao salário de seu antecessor (ainda que o valor seja inferior ao pago a seus colegas americanos).

O executivo argumenta que a sustentabilidade é boa para os acionistas, pois investimentos promovem crescimento. Consumidores, funcionários e autoridades têm simpatia por empresas de boa conduta. Para os acionistas, o sinal mais evidente do sucesso da Unilever é a fatia que possui do mercado mundial. Nos últimos oito anos, segundo a corretora Alliance Bernstein, passou de 16% para 18%. É um desempenho formidável, ainda mais quando se considera que, nos mercados emergentes, onde se concentram quase dois terços das vendas da Unilever, as empresas locais vêm roubando fatia de mercado das multinacionais.

Por outro lado, a empresa sofre com fragilidades cambiais. O fluxo de caixa livre por ação aumentou 65% em dólar, desempenho condizente com a média de uma cesta de dez concorrentes. O retorno total (valorização das ações mais dividendos) chegou a 138% entre 2008 e 2016, pouco abaixo da média registrada por esse grupo de rivais. As afirmações mais ousadas de Polman sobre sua empresa são exageradas, mas, em termos gerais, a Unilever vem sendo administrada de maneira razoavelmente sustentável e tem gerado resultados aceitáveis para acionistas.

E quanto à segunda indagação? Uma empresa como a Unilever tem como sobreviver com uma base fragmentada de acionistas, alguns dos quais talvez estejam mais interessados em ganhar dinheiro fácil e rápido? Em princípio, as aquisições deveriam mirar companhias que se mostrassem ineficientes, ou quando a fusão resultasse em sinergias. Mas a Unilever é bem administrada e as mudanças que a Kraft provavelmente faria – elevar o endividamento e cortar custos – podem ser implementadas por seus atuais executivos.

A Kraft é uma “roll-up”, isto é, uma empresa que recorre a aquisições e cortes de custos para mascarar a baixa taxa de crescimento. Suas vendas estão em queda há nove trimestres. Estratégias como essa costumam acabar mal para investidores. Apesar disso, os juros baixos permitem que essas empresas operem em escala muito maior que antes. Muitos executivos, entre os quais Polman, acham que companhias normais deveriam receber proteção contra abordagens como a da Kraft.

O entrechoque da Unilever com a Kraft indica que ainda não há como descartar a hipótese de que o capitalismo seja míope demais para permitir que empresas operem virtuosamente. Por ora, o resultado mostra que o mercado funciona a contento. As ações da Unilever estavam subvalorizadas. A empresa já planejava adotar algumas das mudanças implementadas de fevereiro para cá.

Mesmo assim, muitas coisas dependem dos próximos 24 meses. A Kraft pode voltar a fazer uma oferta. O sucessor de Polman pode renegar sua doutrina. O atual CEO da Unilever está longe de ser um santo, mas transformou uma das maiores empresas da Europa num “caso de teste”, indicando até onde a primazia do acionista deve ir. Se a Unilever não for capaz de devotar pelo menos seus esforços para o bem da sociedade, nenhuma empresa o será. Vale a pena acompanhar de perto os desdobramentos desse embate.

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© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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