Chad Batka/The New York Times
Chad Batka/The New York Times

A pedra no sapato das companhias americanas

Após quatro décadas criando problemas para muitos conselhos de empresas, o especulador conhecido por suas apostas agressivas aguça o faro em vez de pensar em parar

Janet Morrissey, New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2011 | 00h00

Perfil

Carl Icahn

Carl C. Icahn persegue negócios como um cachorro persegue carros. O sujeito simplesmente não desiste. Quem conversa com ele durante três minutos fica com a sensação de que ele não poderia desistir mesmo que quisesse.

"O que mais eu faria? Jogar shuffleboard em alguma parte?" É uma velha ladainha essa que Icahn bufa, com indignação, toda vez que surge o tema da aposentadoria.

Ele passou quatro décadas criando problemas para a América corporativa - e ganhando muito dinheiro para si e para seus investidores. Agora, porém, ele começou a rever seu legado, e o futuro do império Icahn depende disso. O que dirão a seu respeito? Ele se eriça todo ao ser chamado de especulador corporativo, embora quando se pesquisa a expressão no Google, seu nome logo aparece. Ele prefere algo mais suave: investidor ativista.

No início do ano, Icanh anunciou abruptamente que fecharia seu próprio fundo de hedge. Ele está devolvendo todo o dinheiro de investidores de fora. De agora em diante, Carl Icahn só administrará para Carl Icahn. Administrar dinheiro alheio era uma dor de cabeça, diz.

Carl Icahn dirige sua empresa de investimentos de escritórios elegantes 47 andares acima da Quinta Avenida em Midtown Manhattan. Para esta matéria, falou por telefone ao longo de várias semanas, mas sob a condição de poder vetar qualquer citação.

O que realmente sobrou para se dizer sobre Carl Celian Icahn? Mesmo os jovens demais para lembrar suas façanhas dos anos 1980 conhecem as histórias. Nascido e criado no Queens por pais com meios relativamente modestos, Carl ajudou a pagar seus estudos em Princeton com dinheiro ganho no pôquer. Seus pais queriam que ele fosse médico, de modo que o filho obediente foi para uma faculdade de medicina. Aí um paciente com tuberculose tossiu sobre ele. "Eu disse: chega, vou cair fora."

Um tio rico, Elliot Schnall, o encorajou a ir para Wall Street em 1960, contra o desejo de seus pais. Sua mãe ficou consternada. "Ela disse que Wall Street era para jogadores", lembra Schnall. O pai de Icahn se ofereceu para ajudar o filho a abrir uma mercearia.

Em 1968, porém, Icahn havia começado a Icahn & Company e, com um empréstimo do tio, adquiriu um assento na Bolsa de Valores de Nova York.

Sucessos e fracassos. O resto é história. RJR Nabisco, o desastre que foi a TWA, Phillips Petroleum, Viacom, Uniroyal, Marshall Field, American Can, USX, Marvel Comics, Time Warner, Yahoo, Motorola, Lions Gate Entertainment - a lista de sucessos, e fracassos, continua.

Icahn tem estado particularmente ativo nos últimos anos. Desde 2004, ele começou 91 campanhas ativistas envolvendo 79 empresas americanas. Uma de suas maiores vitórias foi a ImClone Systems, empresa farmacêutica envolvida num escândalo financeiro em 2002. Icahn saltou sobre a ação quatro anos depois, iniciou uma batalha de procurações, impediu que o conselho de administração aceitasse uma oferta de aquisição do controle de US$ 36 por ação, e assumiu o cargo de chairman. Dois anos depois, a ImClone aceitou uma proposta de US$ 70 por ação da Eli Lilly. Icahn embolsou US$ 418 milhões sobre o investimento de US$ 196 milhões.

Depois houve o National Energy Group, incluindo a TransTexas Gas Corporation e a Panaco, que ele tirou da concordata de 2000 a 2005. Ele transformou o investimento de US$ 300 milhões em US$ 1,5 bilhão quando a companhia foi vendida à SandRidge Energy em 2006. Icahn também fracassou. Ele perdeu, por exemplo, US$ 185 milhões na Blockbuster, que pediu concordata alguns anos depois que ele a comprou.

Brett Icahn, de 31 anos, filho mais novo do especulador, participa do conselho de várias companhias em que seu pai investiu. E também administra um fundo de hedge que deu um retorno de 50% em 2010.

Os dois jogam xadrez com frequência, apostando milhares de dólares. Brett joga melhor. "Não consigo imaginar como ele consegue", diz o pai, acrescentando que um profissional de xadrez viria para treiná-lo ainda naquele dia. "Não conte ao Brett. Não quero que ele saiba."

Como o pai, Brett Icahn foi para Princeton. Ele estagiou no Goldman Sachs, mas depois seguiu carreira como diretor de cinema, fazendo alguns pequenos filmes de arte. Mas ingressou na empresa do pai em 2002. "Eu sempre soube que acabaria nas finanças", diz Brett Icahn.

No cinema. Oliver Stone foi ver Carl Icahn quando estava trabalhando em seu filme "Wall Street, Poder e Cobiça" de 1987. O conselho de Gordon Gekko - "Se você quer um amigo, arranje um cachorro" - foi, de fato, uma tirada de Carl Icahn.

Icahn fez um bocado de inimigos e pseudo amigos em seu tempo. No ano passado, ele se enredou com Donald Trump em uma batalha jurídica envolvendo três cassinos. E acabou perdendo nos tribunais. Trump diz que ficou surpreso com a briga porque ele e Icahn haviam sido amigos.

Ao longo dos anos, ele havia oferecido a Icahn assentos privilegiados no torneio US Open de tênis e o aconselhara em seu divórcio nos anos 1990. "Carl é alguém que, infelizmente, sempre colocará o negócio acima dos relacionamentos", diz Trump. "Eu sou do tipo leal, por isso não vejo amigos brigando com amigos. Mas com Carl, a amizade termina onde o negócio começa."

Após tantas batalhas, seria de pensar que Carl Icahn aposentaria as armas. Errado. Pense em Alexandre, o Grande, diz Icahn. Ele nunca parou. "Você conquista os países, coloca pessoas neles e depois vai embora."

Alexandre atingiu cedo o apogeu e morreu com 32 anos. Carl Icahn, aos 75, segue em frente, procurando uma nova Batalha de Gaugamela. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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