A Petrobras e a cólera de Bolsonaro
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A Petrobras e a cólera de Bolsonaro

Há razões para acreditar que o governo está satisfeito com os recursos que obtém da política de preços adotada pela Petrobras e que o presidente Bolsonaro apenas finge indignação para agradar seu eleitorado fiel

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 20h07

Alguém ainda leva a sério a indignação do presidente Jair Bolsonaro pelo critério de preços adotado pela Petrobras? A Bolsa e o mercado financeiro começam a ignorar.

Já foram sacrificados três bodes expiatórios por conta desse teatro: dois presidentes da Petrobras, Roberto Castello Branco e Joaquim Silva e Luna, e, agora, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

O maior indício de que Bolsonaro apenas finge indignação é o fato de que seus ministros não o acompanham nesse jogo. Alguém já ouviu alguma declaração do ministro Paulo Guedes que endosse as declarações de Bolsonaro de que “o lucro da Petrobras é um estupro”? Nem tampouco Bento Albuquerque tocou a mesma partitura. Tanto não tocou, que está demitido.

Há fortes razões para acreditar que o governo Bolsonaro está satisfeito com os benefícios que obtém da política de paridade internacional de preços.

Os polpudos dividendos, royalties e receita com impostos pagos pela Petrobras são diretamente proporcionais aos preços praticados por ela. Desde 2019 foram nada menos que R$ 447 bilhões que proporcionaram grande alívio ao caixa do Tesouro. Se a indignação de Bolsonaro fosse sincera, teria nomeado para a Petrobras presidentes comprometidos com o controle de preços e teria usado os recursos pagos pela companhia para pagar subsídios aos caminhoneiros e consumidores de gasolina.

Bolsonaro finge que é vítima da Petrobras porque não quer a vinculação da alta de preços dos combustíveis com sua campanha eleitoral.

O pré-candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nesse particular, pensa igualzinho a Bolsonaro. Não chega a dizer, como Bolsonaro, que “o lucro da Petrobras é crime”, mas tem afirmado que, se eleito, “abrasileirará os preços da Petrobras”, embora não diga como.

Qualquer outro critério que viesse a ser adotado implicaria não só artificializar a política de preços dos combustíveis, como, também, afastaria os investidores nas cinco refinarias, que têm de ser vendidas por imposição do Cade.

Um controle de preços dos combustíveis, como querem Bolsonaro e Lula, produziria distorções. A mais importante delas seria o praticamente inevitável desabastecimento, uma vez que cerca de 20% dos combustíveis, especialmente o diesel, são importados a cotações do mercado internacional.

 

O atraso dos preços internos calculados nesta quarta-feira é de 17% para a gasolina e de 13% para o diesel, como mostra o gráfico com dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Por isso, vêm aí mais reajustes. Quantas cabeças ainda terão de rolar para dar conta da cólera do presidente Bolsonaro?

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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