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A pobreza é mais do que a falta de dinheiro

Estou emocionado por receber o Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Homenagem a Alfred Nobel de 2015. Fico ainda mais emocionado com o fato de a comissão do Nobel ter destacado o trabalho que eu e meus colaboradores desenvolvemos com a Índia.

Angus Deaton*, GLOBAL VIEWPOINT NETWORK/WORLDPOST

21 Outubro 2015 | 02h04

Meu trabalho mostra a importância do acesso de pesquisadores independentes aos dados de modo a verificar a precisão das estatísticas do governo, e também para que o debate democrático na Índia possa ser informado pelas diferentes interpretações de diferentes estudiosos. Dados de alta qualidade, abertos, transparentes e livres de censura são necessários para sustentar a democracia.

Utilizei dados dos famosos levantamentos de amostragem nacional da Índia para medir a pobreza. Talvez a maior ameaça a essa medição seja a existência de uma imensa discrepância entre as estatísticas das contas nacionais e os levantamentos. Esses últimos "descobrem" um consumo menor que o registrado nas contas nacionais, cujas medidas também aumentam mais rapidamente. Tenho certeza que parte do problema está nos levantamentos - conforme as pessoas gastam mais numa variedade mais ampla de gastos, o total se torna mais difícil de calcular -, mas há problemas também no NAS, e muito me aborreceu ao longo dos anos que os críticos dos levantamentos tenham recebido muito mais atenção que os críticos das medidas do crescimento. Talvez ninguém queira correr o risco de uma mudança que possa diminuir o espetacular (ao menos como medido) ritmo de crescimento da Índia?

Precisamos de trabalhos melhores para solucionar essa questão. Sem isso, não podemos saber ao certo o que está ocorrendo com a pobreza e a desigualdade na Índia atualmente. Medições que deveriam ser claras e indiscutíveis tornam-se em vez disso objeto de amargos debates partidários.

A pobreza é mais que a falta de dinheiro, e meu trabalho com Jean Drèze documentou as melhorias no estado ainda lastimável da nutrição na Índia. O ex-primeiro-ministro Mammohan Singh descreveu como vergonha nacional as dificuldades de crescimento das crianças em decorrência da desnutrição, e ele tem razão. Nosso trabalho destacou que a desnutrição não se limita à falta de calorias, e muito menos às calorias provenientes de cereais, afetando mais a falta de variedade na dieta - a ausência de verduras frescas, ovos e frutas. Está também fundamentalmente ligada à falta de saneamento básico adequado, ao fato de as mulheres não conseguirem se alimentar direito durante a gravidez, e aos serviços de saúde deficientes para mães e crianças pequenas (em muitas regiões).

Menos afirmações. Outro ramo do meu trabalho envolve os prós e contras dos testes de controle aleatórios e sua utilidade para o desenvolvimento de políticas públicas. A grande mensagem que tenho a esse respeito é não afirmar demasiadamente. Essas ferramentas não são mágicas. Por exemplo, se quisermos pensar no uso de transferências de dinheiro em lugar do Sistema Público de Distribuição, temos de levar em consideração todas as mudanças subsequentes, o que ocorreria com a obtenção e armazenamento, e o que ocorreria com o preço dos grãos no livre mercado. Um experimento pode ser útil para parte da tarefa, mas apenas parte, e sem todas as partes não podemos avaliar o que deve ser feito. Também me preocupo ao ver que experimentos são soluções técnicas para problemas políticos que na verdade deveriam ser decididos num debate democrático; o fato de esses experimentos serem frequentemente realizados nos pobres, e não pelos pobres, é um sinal bastante negativo.

Por fim, escrevi a respeito da desigualdade, e da ameaça que a desigualdade extrema traz para a democracia. A Índia obteve imenso sucesso na construção de uma vida melhor para muitos. Alguns deles agora têm padrões de consumo mais semelhantes aos de americanos e europeus ocidentais, e não foram poucos os que se tornaram fabulosamente ricos. Num mundo ideal, a distância que se abriu entre esses e aqueles deixados para trás poderia ajudar a erguer os outros.

Os pobres podem enxergar as novas oportunidades e compreender que, com ensino e sorte, seus filhos e filhas também poderão prosperar. Mas há também terríveis perigos na desigualdade se aqueles que escaparam da miséria usarem sua riqueza para impedir a ascensão daqueles que ainda se veem aprisionados por ela. Ensino decente, um sistema de saúde eficaz e acessível e saneamento operante são bens que beneficiam a todos, e a nova classe média deveria ficar contente em pagar impostos que ajudam outros a compartilhar da sua sorte. Adam Smith disse que "para quem o paga, cada imposto é um distintivo, não de escravidão, mas de liberdade". E se os impostos forem gastos com sabedoria, a liberdade poderá ser amplamente partilhada.

*Economista escocês ganhador do Prêmio Nobel de Economia deste ano por sua análise do consumo, pobreza e bem-estar

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