A política do Fed ainda deve regrar o mundo?

Os ajustes da política do BC americano estão ficando incongruentes com o ambiente econômico em boa parte do restante do mundo

O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h06

Até 60% das transações globais são feitas em dólares americanos. Mais de um terço da produção econômica mundial vem de economias do bloco do dólar, e uma parte ainda maior dos ativos globais é precificada na moeda, ou em moedas correlatas.

Seu papel como moeda global de fato por mais de seis décadas fez da política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) uma das principais exportações dos Estados Unidos.

Como observamos recentemente no sul da Europa, ou na Ásia durante a crise financeira de 1997, importar política monetária pode ser perigoso. É surpreendente que o domínio do Fed, hoje dirigido por Ben Bernanke, não tenha causado problemas mais profundos ao longo das décadas.

A relativa falta de problemas pode ser porque, no grosso dos últimos 60 anos, os EUA foram a maior economia do mundo, e outras economias maduras foram responsáveis por boa parte do restante da produção global. Isso significou que os ajustes de política monetária nos EUA estiveram em geral em sintonia com o ciclo global. Uma aceleração do crescimento americano provavelmente seria espelhada em economias similares, ou as melhores condições nos EUA puxariam o restante do mundo mediante laços comerciais reforçados.

Mas isso está mudando.

A minguante contribuição americana para o crescimento global significa que os ciclos econômicos mundiais estão ficando menos sincronizados e mais divergentes. Por conseguinte, as políticas do Fed estão se revelando cada vez mais inadequadas para a maior parte do restante do mundo.

Considerem-se os últimos três anos. Em 2010, mercados emergentes como Brasil e China de digladiavam com altas da inflação e economias superaquecidas enquanto o Fed estava envolvido no afrouxo monetário, empurrando ainda mais capitais para aqueles mercados. Agora, com os EUA no meio de uma recuperação econômica sustentável impulsionada por causas domésticas como energia barata e elevação dos preços das moradias, o Fed parece estar indicando que vai endurecer sua política. Mas a zona do euro continua em recessão, ou perto disso, e o crescimento nos mercados emergentes está se desacelerando drasticamente.

Isso aponta para um problema fundamental no sistema monetário: os ajustes da política monetária do Fed estão ficando incongruentes com o ambiente econômico em boa parte do restante do mundo.

Evidentemente, os EUA têm o direito de ajustar suas políticas monetárias em resposta a mudanças na demanda doméstica. Aliás, seria politicamente inaceitável que o Fed, financiado pelos contribuintes americanos, baseasse suas decisões em considerações como o desemprego na Espanha ou os preços das casas em Hong Kong. Teoricamente, países que experimentam oscilações nas taxas de câmbio ou no fluxo de capitais como resultado de decisões do Fed deviam aceitá-las como uma parte normal do reequilíbrio global, seja qual for o custo, ou benefício, para a sua competitividade. Foi o que Jeffrey Frankel e outros argumentaram.

Mas isso não é realista, porque nações soberanas instintivamente procurarão proteger os próprios interesses nacionais acima do bem comum.

Durante anos, a China tratou de aumentar sua competitividade internacional mediante o controle de capitais e/ou intervenções cambiais. E a era do afrouxamento monetário encorajou muitos outros países, da Suíça ao Brasil, a fazerem o mesmo.

Entretanto, o efeito real dessa intervenção foi criar uma super dependência do crédito junto com desequilíbrios internos significativos.

Como ilustra um estudo de trabalho recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), países que tentam controlar taxas de câmbio são mais propensos a experimentar expansões do crédito por causa do maior incentivo para companhias assumirem dívida em moedas estrangeiras e a realidade de que a esterilização das reservas em moedas estrangeiras é geralmente apenas parcial. Essa dinâmica é evidente nos mais de 20% de crescimento anual do crédito no Brasil, ou o exagero dos dados de exportação chineses atribuível às tentativas de companhias domésticas de ter acesso a financiamentos baratos em dólares americanos em Hong Kong.

Com os investidores hoje convencidos de que o Fed está no caminho do arrocho, a retirada de capital de mercados emergentes ameaça expor esses desequilíbrios. Na semana passada, numa tentativa de atrair de volta os capitais, o Brasil aumentou suas taxas de juros em 50 pontos base, para 8,5%. É esperado que ele aumente as taxas em outros 75 pontos base até o fim do ano. Os aumentos são necessários, mas dificilmente serão medidas úteis numa economia em que o crescimento tem sido puxado pelo consumo lastreado no crédito e onde a expansão já desacelerou 0,9% em 2012.

Enquanto isso, a recente elevação das taxas interbancárias chinesas está sendo atribuída ao desenrolar de uma especulação com a moeda americana.

Infelizmente, há pouca coisa que se possa fazer nesse estágio para afastar o processo de reequilíbrio da expansão fácil atrelada ao crédito. No curto prazo, isso significará um aumento dos calotes de empréstimos, falta de liquidez e crescimento mais lento.

Por último, os mercados emergentes em particular precisam resistir à tentação de atrelar suas moedas ao dólar mediante a intervenção em mercados cambiais por períodos prolongados; tais medidas podem amparar a competitividade no curto prazo, mas causar mais danos do que vantagens no longo prazo. Infelizmente, a tentação dos ganhos de curto prazo provavelmente se mostrarão demasiado grandes, e sem uma pressão internacional mais significativa, esses ciclos de expansão e contração do crédito se tornarão mais frequentes.

Portanto, no futuro, em vez de oferecerem um apoio tácito a controles de capital e à intervenção monetária, as instituições internacionais deveriam adotar uma posição firme sobre países que constroem reservas significativas em moedas estrangeiras, ainda mais se essas intervenções estiverem associadas a um forte aumento do crédito.

Os próximos anos provavelmente mostrarão que essas intervenções não contribuem nem com o bem nacional nem com o bem comum./ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Artigo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.