A política externa do PT – hora do balanço

Há mais de 13 anos no poder, o Partido dos Trabalhadores (PT) vive a sua “travessia do deserto”, acossado pela convergência de profunda crise política e de processo inédito de deterioração econômica. O ciclo político que levou o PT ao poder e conferiu a seus líderes apoio popular significativo se esgota. O momento é, portanto, adequado para um balanço da política externa dos governos do PT.

Pedro da Motta Veiga e Sandra Polónia Rios, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2016 | 07h15

Se FHC testou os limites da estratégia externa do nacional-desenvolvimentismo, ao engajar o Brasil em negociações comerciais com países desenvolvidos, Lula levou a política externa brasileira de volta aos trilhos da tradição nacional-desenvolvimentista. Mas reduzir a política externa de Lula da Silva a “mais do mesmo” nacional-desenvolvimentismo seria um erro.

De fato, historicamente o nacional-desenvolvimentismo produziu posturas defensivas na política externa brasileira e, em especial, em sua dimensão econômica. O principal objetivo da estratégia foi preservar espaços para políticas industriais ativas e limitar compromissos com acordos e regimes internacionais. Em relação a essa tradição, a política externa de Lula inovou ao agregar um componente ofensivo à estratégia.

Esse componente se expressou na multiplicidade de iniciativas e propostas que extrapolaram os limites regionais tradicionalmente (auto) impostos pela diplomacia brasileira à sua atuação. Atestam essa ambição as alianças preferenciais (Brics, Ibas), a criação de foros de diálogo político entre países sul-americanos e africanos ou árabes e a tentativa de influir na questão nuclear iraniana, em 2010. Além disso, o Brasil foi um ativo participante em foros econômicos globais, expressando postura reformista em todos eles (OMC, G-20, FMI, UNFCCC).

Ao fim do governo Lula, o Brasil ganhara prestígio e acumulara recursos de soft power no cenário internacional. No entanto, mais além dos ganhos de reputação e do soft power acumulado, os resultados foram muito menos expressivos – sobretudo na dimensão econômica. Enquanto os resultados positivos da política alimentavam a narrativa da emergência do Brasil, a falta de resultados palpáveis deu combustível aos críticos de uma política externa vista como pouco pragmática e despreocupada com a dimensão econômica da inserção brasileira no mundo.

A sucessora de Lula, embora compartilhando suas visões de mundo e ideologia, nunca demonstrou apetite por temas internacionais. Isso ajuda a explicar a descontinuidade introduzida na política externa pela passagem do bastão de Lula a Dilma. No entanto, o que realmente parece explicar a descontinuidade na política externa é uma profunda mudança nas condições internacionais e, mais ainda, no ambiente econômico doméstico.

No plano internacional, os anos 2010 e 2011 deixaram claro que havia um enorme otimismo na “narrativa da emergência” do Brasil e de outros países e que as principais apostas globais feitas pelo Brasil com Lula se frustravam: paralisia das negociações multilaterais e sinais de fadiga das iniciativas Sul-Sul.

Na esfera doméstica, o medíocre desempenho econômico do País – e, em especial, da indústria – passou a pautar, de forma quase exclusiva, a agenda do governo. A política comercial tornou-se crescentemente protecionista, apoiada por políticas industriais fortemente discriminatórias contra importações, em nome do fomento ao “conteúdo nacional”. A maioria dos instrumentos de política industrial desse período terminou sendo contestada por europeus e japoneses na Organização Mundial do Comércio.

A despreocupação com os custos e a irresponsabilidade no uso de recursos públicos, que caracterizaram a condução da política industrial, em muito contribuíram para as pedaladas fiscais que deram origem ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.

A política externa do Brasil “encolheu” e a América do Sul tornou-se o horizonte de influência externa do Brasil. A dimensão global da estratégia perdeu substância. E o Brasil está distante das iniciativas que poderão impactar a governança da economia mundial nas próximas décadas, como os acordos megarregionais.

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