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A potência dos juros

Há muito espaço ainda para a política monetária atuar no Brasil

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 04h00

A taxa Selic caiu de 14,25% em outubro de 2016 até os atuais 6,0% e mesmo assim a economia cresceu muito menos do que o esperado desde então. Agora, com a crescente aposta de que o Copom cortará os juros básicos para abaixo de 5,0%, fica a dúvida: teria a política monetária perdido sua potência no Brasil ou um ciclo agressivo de redução de juros ainda conseguirá acelerar o crescimento?

Para a reunião do Copom hoje, os analistas e investidores são unânimes na aposta de um corte de 0,50 ponto porcentual, para 5,50%, mas não há um consenso sobre o tamanho total do ciclo de afrouxamento monetário e, por tabela, o quanto de estímulo é necessário o Banco Central injetar na economia brasileira.

Na visão de muitos analistas, restou a política monetária como único motor do crescimento da economia no curto prazo, uma vez que a demanda externa vem sendo prejudicada pela desaceleração global e o arrocho fiscal brasileiro vem asfixiando o investimento público.

Já uma parcela do mercado crê que é a confiança com as reformas estruturais, como a da Previdência e a tributária, e não os níveis dos juros, o que está atrapalhando o investimento e o consumo privados.

É preciso ressaltar que, diferentemente do ciclo anterior de corte de juros, quando o BC reduziu a Selic para 7,25% em 2012, o governo Dilma Rousseff praticava uma política fiscal demasiadamente expansionista, o que deixava os investidores céticos sobre o controle da inflação, resultando em prêmio de risco na curva de juros e em outros ativos brasileiros.

Agora, a política fiscal tem sido contracionista e as expectativas inflacionárias estão sob controle – até abaixo da meta de inflação –, o que abre espaço para a política monetária ser mais expansionista e surtir efeito, uma vez que há confiança no mercado de que os juros vão permanecer baixos por um período prolongado.

Outra questão é a crescente percepção no exterior de que a política monetária sozinha não é mais suficiente para estimular a economia e trazer a inflação para a meta perseguida por muitos bancos centrais de países desenvolvidos.

Na semana passada, por exemplo, o Banco Central Europeu (BCE) reduziu a taxa básica em 0,10 ponto para um território mais negativo, passando de -0,4% para -0,5%, além de ter retomado compras mensais de ativos. Na ocasião, o presidente do BCE, Mario Draghi, exortou as autoridades dos países da zona do euro a agir e adotar pacotes de estímulos fiscais a fim de tornar a política monetária mais eficaz.

Se os banqueiros centrais de países desenvolvidos pedem ajuda da política fiscal para estimular a economia, por que então, no Brasil, a política monetária sozinha conseguiria cumprir essa tarefa? Na fotografia atual, não dá para fazer uma comparação entre o Brasil e outras nações desenvolvidas.

Lá fora, em muitos países, além de as taxas de curto prazo estar em território negativo há muito tempo, a curva de juros está invertida, ou seja, as taxas praticadas pelos títulos públicos de longo prazo estão menores do que as dos papéis de curto prazo. Assim, o estímulo da política monetária fica limitado, daí a necessidade de medidas fiscais para ampliar seus efeitos positivos.

No Brasil, a situação é de uma política monetária convencional: as taxas de juros reais caíram, é verdade, mas ainda estão positivas entre 2% e 2,5% no curto prazo, ou seja, há espaço para os juros reais caírem mais e ter um impacto positivo sobre o mercado de crédito, por exemplo. Além disso, a curva de juros no Brasil ainda está inclinada, quando a taxa de longo prazo dos contratos futuros está bem acima da de curto prazo.

Há muito espaço ainda para a política monetária atuar no Brasil. Como o efeito na economia de um corte de juros leva entre seis a nove meses e como o Copom somente começou a reduzir os juros em julho, o impacto na economia – via concessão de empréstimos e consumo – deve ser sentido na virada do ano e, mais significativamente, ao longo do primeiro semestre de 2020. Mas é inegável que medidas para reduzir o spread bancário, melhorar o ambiente de negócios e reduzir o chamado custo Brasil são necessárias para maximizar a potência dos juros.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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