A pressão do dólar

A pressão do dólar

O que a valorização da moeda americana significa para a economia mundial, em especial para os países emergentes

The Economist, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2016 | 05h00

Quando, no futuro, os historiadores econômicos examinarem os anos subsequentes à crise financeira global, talvez se perguntem em que momento o mercado internacional de crédito viu a enxurrada de dólar farto e barato chegar a seu ápice e começar a refluir. Teria sido em setembro de 2012, quando a Zâmbia fez sua primeira emissão de eurobonds (títulos denominados em dólar), pagando juros de 5,4%, e captou US$ 12 bilhões? Ou foi um ano depois, quando os investidores disputaram a tapa os US$ 850 milhões em papéis emitidos por uma estatal de pesca de atum moçambicana? Entre um episódio e outro, a Petrobrás captou US$ 11 bilhões em títulos de dez anos, valor recorde para uma empresa de país emergente, oferecendo módicos 4,35% de juros.

Antes mesmo da mais recente alta do dólar, os investidores já tinham motivos para se arrepender de terem ficado com esses papéis. Nas duas semanas que se seguiram à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, a moeda americana registrou valorização de 3% ante uma cesta de moedas de países desenvolvidos. Variação tão grande em intervalo de tempo tão curto é um fenômeno raro. A farra do endividamento em dólar ajuda a explicar sua ocorrência.

No fim de 2015, segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), governos e empresas fora dos EUA acumulavam US$ 9,7 trilhões em dívidas denominadas em dólar. Desse total, US$ 3,3 trilhões eram devidos por tomadores de mercados emergentes e boa parte deles pesava em balanços corporativos. Em países com dívidas em moeda estrangeira, a taxa de câmbio funciona como um amplificador financeiro. Os estoques de dívida em dólar são como posições vendidas no mercado de câmbio. Quando o dólar se valoriza bruscamente, a correria para cobrir essas posições pressiona a moeda americana ainda mais para cima.

A última onda de valorização do dólar tem uma causa aproximada. Os investidores acreditam que Trump obterá a aprovação do Congresso para reduzir a carga tributária das empresas e aumentar os investimentos em infraestrutura. O estímulo fiscal pode levar o Federal Reserve a subir mais rapidamente suas taxas de juros, atraindo capital de volta para os EUA e fortalecendo a moeda. Se o alívio tributário estimular a repatriação da montanha de lucros que as multinacionais americanas mantêm no exterior, isso fará o dólar se valorizar ainda mais.

A política monetária da zona do euro continuará frouxa. O Banco Central Europeu anunciou na quinta-feira a ampliação do seu programa de compra de títulos até o fim do ano que vem. E a eleição de Trump é um “presente” para os japoneses, diz Paul Sheard, da S&P Global. Em setembro, o Banco do Japão se comprometeu a superar sua meta de inflação de 2%. A tarefa será auxiliada pelo enfraquecimento do iene ante o dólar; nas semanas que se seguiram à vitória de Trump, a moeda japonesa perdeu 7% de seu valor.

Se é festejada em Tóquio e Frankfurt, a alta do dólar é bem menos alvissareira para os mercados emergentes. Por três motivos. Em primeiro lugar, desvalorizações cambiais abruptas pressionam os bancos centrais a subir os juros, tanto para evitar novas desvalorizações, como para conter a inflação resultante da perda de valor da moeda local. Em 24 de novembro, por exemplo, depois de a lira registrar um recorde histórico de baixa ante o dólar, o banco central da Turquia elevou seus juros.

Em segundo lugar, o fortalecimento do dólar tem impacto indireto sobre o mercado de crédito dos mercados emergentes. Estudo realizado por Valentina Bruno, da Universidade Americana, de Washington, e Hyun Song Shin, do BIS, mostra que as empresas de países em desenvolvimento que se endividam em dólar acabam fazendo as vezes de instituições de crédito, emprestando internamente parte dos recursos captados no exterior. Quando o dólar estava em baixa, essas empresas captaram a rodo nos mercados globais. Em razão disso, nos mercados emergentes, a valorização da moeda americana gera um aperto generalizado no crédito.

O terceiro efeito remete mais especificamente ao endividamento em dólar das empresas. Para saldar essas dívidas, que começam a aumentar de forma perigosa em moeda local, as empresas tendem a cortar investimentos e demitir funcionários.

Também é evidente o impacto da valorização da moeda americana no mercado financeiro dos países desenvolvidos. Acredita-se que os mercados de câmbio persigam uma paridade coberta de juros (“covered-interest parity”), isto é, que a cotação de duas moedas no mercado futuro deve equivaler à sua cotação no mercado à vista mais a diferença entre as taxas de juros praticadas nos países em que essas moedas circulam. Se não fosse assim, um investidor poderia comprar uma moeda hoje, vendê-la no mercado futuro, embolsar os juros e ainda sair com lucro quando o contrato futuro for liquidado. A diferença implícita entre os juros projetados pelo mercado futuro deve ser zero. Para contratos de câmbio envolvendo dólares e ienes, essa diferença chegou a quase 0,9%. Isso significa que empresas e bancos estão pagando muito mais que o normal para adquirir dólares com o risco cambial “hedgeado”. O custo do hedge parece subir com a valorização do dólar.

Alguns analistas vêm traçando paralelos entre a conjuntura atual e períodos anteriores de alta sustentada da moeda americana. Entre 1980 e 1985, por exemplo, o dólar se valorizou 50%, com consequências brutais para os exportadores americanos. A pressão pela imposição de barreiras comerciais mais elevadas só arrefeceu com o Acordo de Plaza, fechado em 1985 por um grupo de países desenvolvidos, com o intuito de promover a queda do dólar. Hoje, a preocupação é que o fortalecimento da moeda americana seja motivo de conflitos, não de acordos. Trump parece ansioso em recorrer a medidas protecionistas, numa tentativa equivocada de reequilibrar a balança comercial dos EUA. Um dólar mais forte pode ser o pretexto de que ele precisa para tomar essa decisão desastrosa.

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TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.  

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