A pressão sustentável que vem de cima

Instrução do governo federal força micro e pequenas empresas a buscar práticas verdes 

Ligia Aguilhar, especial para O Estado,

22 de setembro de 2010 | 15h05

A adoção de práticas sustentáveis está se tornando um critério decisivo para as empresas - inclusive as micro e pequenas - venderem seus produtos. Uma instrução normativa (IN) da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação, do Ministério do Planejamento, em vigor desde fevereiro, determina as chamadas ‘licitações verdes’. Isso significa que as aquisições feitas pela administração pública federal vão ter de atender à parâmetros de sustentabilidade.

Esses critérios vão ser exigidos também das micro e pequenas nas compras de serviços e produtos das áreas de construção civil, informática, mobiliário, papel, material e serviços de limpeza, e serviços de impressão. Será considerado todo o ciclo do produto, da extração até a produção, utilização e descarte.

Segundo o diretor do departamento de logística e serviços gerais da secretaria, Carlos Henrique de Azevedo, a medida deve regular todo o mercado. "Outros países já utilizam seu poder de compra para induzir novas políticas." Por isso, nos próximos anos a adoção desses critérios vai se tornar uma exigência também da iniciativa privada.

Adaptação. O Sebrae está montando um grupo de trabalho para debater oportunidades para pequenas e médias empresas se adequarem para atender a esses critérios. "Elas têm mais facilidade para se reposicionar e, se conseguirem se adaptar primeiro, vão ganhar mercado", diz o gerente de políticas públicas do Sebrae, Bruno Quick.

O maior problema está no fato de que as certificações exigidas para comprovar que as práticas da empresa são, de fato, sustentáveis, são caras.

O Sebrae tem programas para facilitar esse processo, como o Bônus Certificação, que subsidia 50% do custo da certificação. No entanto, esses programas não são suficientes para atender a demanda.

Por causa disso, as licitações feitas pela administração pública vão admitir diferentes tipos de certificações, incluindo uma autodeclaração que pode ser feita pela própria empresa.

A presidente da consultoria especializada em Comércio Justo Parceria Social, Ana Asti, diz que o investimento compensa. "Fizemos uma pesquisa com 200 empresas e 69% acreditam que investir em comércio justo aumenta suas margens de retorno."

Um posicionamento ecologicamente correto também funciona como estratégia de marketing. "Para o empreendedor, todas as outras formas de se destacar no mercado são muito caras. Ser sustentável é um marketing que não exige gasto extraordinário", comenta o presidente da Associação Brasileira de Franquias do Rio de Janeiro (ABF-Rio), Alain Guetta.

Como o próprio consumidor tem feito escolhas mais conscientes, a empresa deve se preocupar também em comunicar o seu posicionamento.

"A sustentabilidade deve estar presente no visual, na embalagem e na atitude da empresa. E se for apenas marketing, o consumidor vai perceber."

Para adequar a empresa à nova realidade, o empreendedor deve elaborar um plano de sustentabilidade. "Ele precisa fazer um estudo da sua cadeia produtiva e de seus clientes para identificar onde fazer as mudanças", diz Asti. Os critérios adotados devem refletir os valores da empresa e dos seus consumidores.

As grandes empresas já entenderam o recado e começaram a mudar o seu posicionamento. A prova disso é uma pesquisa feita com 776 presidentes de empresas em todo o mundo e divulgada no mês de junho pela Accenture, em parceira com a Pacto Global - iniciativa da Organização das Nações Unidas para encorajar empresas a adotar políticas de responsabilidade social corporativa e de sustentabilidade. No estudo, 93% dos executivos declararam que a prática sustentável será fundamental para o futuro do seu negócio.

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