AFP PHOTO / MANDEL NGAN
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A primavera dos bajuladores

Trump está errado quanto aos fatos, mas parece que ele só dá ouvidos aosassessores que falam aquilo que ele quer ouvir

Paul Krugman, The New York Times

14 Março 2018 | 05h00

Quando Donald Trump tomou posse, muitos temiam que ele romperia nossas relações econômicas próximas com o México e/ou começasse uma guerra comercial com a China. Até agora, nada disso aconteceu.

É verdade que o nosso acordo de livre-comércio com México e Canadá ainda está sob ameaça, e Trump impôs tarifas a alguns produtos chineses. Mas sua ira comercial parece se concentrar cada vez mais em um alvo inesperado: a União Europeia, que como ele escreveu em um tuíte, tem “barreiras e tarifas horríveis sobre produtos dos EUA”.

Isso é esquisito em vários níveis. Na grande (muito grande) medida em que o Trumpismo é baseado em hostilidade racial, escolher uma briga com a Europa, entre todos os outros lugares, parece estranho. Além disso, os EUA sempre encararam favoravelmente a UE, que é, apesar de todas as suas falhas, uma força importante para a paz e a democracia. Por que se apressar em travar uma disputa de cuspe a distância com nossos aliados, que apenas atende aos interesses dos inimigos da liberdade, como Vladimir Putin? Oh, espere aí.

Além de tudo isso, no entanto, Trump está simplesmente errado quanto aos fatos. “As exportações dos EUA para a União Europeia desfrutam de uma tarifa média de apenas 3%”, diz o guia do próprio governo dos EUA para os exportadores.

De onde Trump está recebendo tais informações erradas? Provavelmente de Peter Navarro, seu czar comercial, cuja estrela está claramente em ascensão. E a história do crescimento de Navarro nos diz muito sobre a natureza da administração Trump – um lugar que recompensa os aduladores que dizem ao chefe o que ele quer ouvir.

Primeiro, como é que Navarro foi contratado? De acordo com a reportagem de Sarah Ellison na Vanity Fair, agora no The Washington Post, durante a campanha, Trump disse a Jared Kushner ( seu conselheiro econômico) que encontrasse alguma pesquisa dando sustentação às suas visões comerciais protecionistas. Kushner respondeu indo à Amazon, onde encontrou o livro Death by China (Morte pela China, em tradução livre). Então, ele deu um simples telefonema a Navarro, um dos autores do livro, que se tornou o primeiro conselheiro econômico da campanha.

Navarro possui doutorado em Economia, mas seus pontos de vista estão em grande discordância com o convencional. Levar visões heterodoxas a um público só funciona se os que procuram conselhos são, eles mesmos, pensadores de mente aberta, dispostos a se dar ao difícil trabalho de compreender opiniões opostas e avaliar evidências.

De fato, as visões não convencionais de Navarro parecem principalmente envolver erros básicos, conceituais e factuais. Um desses erros, que é diretamente relacionado ao desafio de cuspe entre Trump e a Europa, é um completo mal-entendido sobre os efeitos comerciais dos impostos sobre o valor agregado (IVA), que os EUA não têm, mas que desempenham um papel importante na receita da maior parte dos países europeus.

Na versão de Navarro do mundo, por exemplo, como expressa em um documento oficial de campanha, o IVA confere às empresas europeias uma grande e injusta vantagem comercial. Os produtos americanos vendidos na Europa têm de pagar o IVA – por exemplo, eles devem pagar um imposto de 19% se forem vendidos na Alemanha. Isso, diz o documento oficial, funciona como uma tarifa de importação. Enquanto isso, os produtores alemães não pagam IVA sobre os produtos que vendem nos Estados Unidos; isso, diz o documento, é como um subsídio à exportação. Tenho certeza de que é o que Trump quer dizer quando fala de tarifas “horríveis”.

Mas o que essa história não conta é o fato de que, quando os produtores alemães vendem aos consumidores alemães, eles também pagam esse imposto de 19%. E quando os produtores dos EUA vendem para consumidores dos EUA, eles, como os produtores alemães, não enfrentam nenhum IVA. Assim, o imposto não desequilibra o campo de jogo, em nenhum dos mercados. Na realidade, um IVA não tem nada a ver com vantagem competitiva; é, basicamente, um imposto sobre vendas – um imposto para os consumidores alemães – e é por isso que o IVA é considerado legal pela Organização Mundial do Comércio.

Então, como alguém que entendeu mal um ponto tão básico e bem compreendido a respeito de impostos e comércio torna-se um importante consultor econômico? Como eu disse, é porque ele diz ao chefe o que o chefe quer ouvir. Mais do que isso, ele está disposto a se humilhar de maneiras extraordinárias.

Eis o que ele disse recentemente à Bloomberg: “Minha função, na realidade, como economista, é tentar fornecer as análises subjacentes que confirmem sua intuição. E sua intuição está sempre certa nesses assuntos”. Uau!

Quero dizer então, que se espera que os assessores da Casa Branca compartilhem muitos dos pontos de vista do presidente e os defendam em público. Mas isso vai muito além disso. Navarro orgulhosamente declarou que é um propagandista, e não um analista político – que seu papel é unicamente confirmar as predisposições de Trump –, ele também está se envolvendo em um nível de servilismo totalmente não americano. Desde quando se tornou aceitável declarar que o Caro Líder é infalível?

Certo, agora é um lugar-comum, mas também um eufemismo, dizer que Trump tem instintos autoritaristas. Uma declaração mais precisa seria a de que ele espera o tipo de tratamento que os déspotas exigem, livre de qualquer crítica dentro ou fora de seu governo e ser saudado com constantes hosanas em louvor.

E todos os que não estão dispostos a entrar nesse jogo de cabeça, que tentaram desempenhar algo mais semelhante às regras democráticas normais, parecem estar fugindo da administração. Logo, sobrarão apenas os bajuladores sem-vergonhas. Isso não vai acabar bem. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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