Christina Rufatto/Estadão - 28/8/2018
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‘A principal certeza que nós temos é a incerteza’, diz economista

Nathan Blanche defende o destravamento de pautas no Congresso para amenizar efeitos de crise econômica

Entrevista com

Nathan Blanche, economista

Luísa Laval, especial para O Estado

12 de março de 2020 | 10h51

Após demonstrar otimismo com o horizonte do governo de Jair Bolsonaro, o economista Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria Integrada, afirma agora estar inseguro com o panorama da economia brasileira,  depois das quedas da Bolsa e aumento da taxa de câmbio. “Os indicadores são muito preocupantes, o País pode estar marchando para uma crise institucional”, afirma. Ele defende o avanço das reformas que estão no Congresso como a melhor forma de amenizar os efeitos da crise. Também diz que o Banco Central (BC) faz o que está ao seu alcance, ao atuar no mercado de câmbio futuro para combater a volatilidade do dólar, mas reforça que só vai haver estabilidade econômica se governo e Congresso Nacional chegarem a um acordo. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Como o sr. avalia a situação atual da economia brasileira?

O melhor sensor para saber da situação de um país, o primeiro termômetro, chama-se taxa de câmbio. Porque ele é o primeiro, mais ágil e mais líquido a reagir. E ele é o somatório das expectativas em relação à economia e à política do país. Sem dúvida, os indicadores são muito preocupantes e se você tem como pano de fundo esse cenário da política econômica e crise internacional, o País pode estar marchando para uma crise institucional. 

É possível prever o cenário brasileiro após a crise do coronavírus?

A principal certeza que nós, os agentes econômicos, temos, é a incerteza. O indicador de incertezas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) está no seu ponto crítico. Ou seja, é uma insegurança tremenda. Esse risco institucional é resultado de uma situação econômica mundial, que tem sua influência no Brasil, mas é nossa também, por exemplo, com essa questão do Orçamento Impositivo (em discussão no Congresso e que tem provocado uma queda de braço entre Executivo e Legislativo).

O sr. ainda acredita que o País pode retomar as perspectivas de crescimento?

A taxa de câmbio, que representa o primeiro sinal do mercado dá sobre a economia do País, está ladeira abaixo: não vai acontecer nenhuma dessas previsões otimistas. Este ano não tem tempo hábil, mesmo que tenha vacina [para o novo coronavírus], mesmo que os preços das commodities subam. 

O que o Banco Central (BC) pode fazer para aliviar a taxa de câmbio?

Vender câmbio futuro. O Banco Central (BC) não vai mudar a trajetória. Se essa crise econômica é causada por insolvência fiscal, o BC não pode recuperar a economia. Ele não empresta dinheiro. Não podemos voltar ao passado, que é o caminho da inflação: o governo emite moeda, desvaloriza a sua moeda, sana as contas públicas, mas quebra o País. Porque a inflação impacta no prato do pobre e no bolso de quem paga o salário do pobre, que são os empresários. O BC pode amenizar volatilidades. Isso ele tem feito, atendendo às necessidades do mercado. O restante está nas mãos do Executivo e do Legislativo.

O que o governo pode fazer para tentar reverter a situação?

Eu sou otimista, conforme a realidade. Se o Congresso e o Executivo chegarem a um acordo sobre o Orçamento Impositivo, se uma regra emergencial for acionada, a situação pode melhorar. É como na família: se você viajou e gastou muito mais do que podia, quando você voltar para pagar o cartão de crédito, você tem de produzir mais e consumir menos. Isso não está na mão do BC, está na mão dos dois: do Executivo e do Legislativo. Para que o Congresso ceda, dê o perdão para anular a regra de ouro (que impede o governo de se endividar para pagar despesas correntes), é preciso negociar. Se no ano passado teve pressão, o Executivo teve de ceder parte do Orçamento para as emendas, este ano tem uma pressão maior devido às eleições. 

Ainda há chance de reformas importantes para a economia passarem no Congresso?

Não nos resta saída senão rezar, porque a realidade está à nossa frente: Bolsa caindo 11%, o dólar chegando a R$ 5. Não tem leigo que não entenda que dólar é preço. Eu quero crer que, com o que aconteceu com a reforma da Previdência, vai haver bom senso diante do tamanho da crise, da realidade do governo e das empresas, e que o Congresso vai chegar a um acordo com o Executivo e manter o equilíbrio fiscal. Não vai ter superávit, não vai diminuir relação dívida-PIB [Produto Interno Bruto]. Mas, também não vai entrar em risco de recessão

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