A prioridade é o emprego

Não há, porém, uma frente única de ataque ao problema

Robson Braga De Andrade*, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2017 | 05h00

Em 2016, mais de 5 mil trabalhadores por dia deram à família a notícia de que perderam o emprego. Ao todo, 12 milhões de pessoas estão desempregadas no País, o pior efeito da maior crise econômica que enfrentamos na história recente. Isso tem de acabar. A prioridade incondicional do governo e da iniciativa privada deve ser encontrar formas de criar o maior número de postos de trabalho o mais rapidamente possível.

Não há, porém, uma frente única de ataque ao problema. Sua solução exige o retorno dos investimentos. Para isso, é fundamental equacionar ao menos duas questões centrais: a restauração da confiança na capacidade de a economia voltar a crescer e a melhora radical no ambiente de negócios. Estes dois aspectos precisam caminhar simultaneamente, com a aprovação de medidas pontuais e reformas mais amplas que ponham o País de novo no rumo do crescimento.

Para recuperar a confiança, é indispensável adotar reformas estruturais que gerem estabilidade fiscal. O primeiro passo foi dado com a emenda constitucional que limita o aumento dos gastos públicos por 20 anos. Mas não há dúvida de que a aprovação da reforma da Previdência, nos moldes em que o governo vem propondo, é imprescindível para o equilíbrio orçamentário de longo prazo. Sem a sustentabilidade da Previdência, o esforço feito até agora poderá ser em vão.

Para aperfeiçoar o ambiente de negócios, o País precisa retirar entraves ao funcionamento adequado das empresas e à contratação de mão de obra. É imperativo modernizar a legislação que rege as relações de trabalho, com destaque para a valorização das negociações coletivas e a regulamentação da terceirização. E muito tem de ser feito para dar segurança jurídica a empreendimentos, simplificar regras tributárias e atualizar marcos regulatórios, entre outras tarefas.

Grandes projetos de infraestrutura, que contratam trabalhadores em larga escala, mas são naturalmente afetados pela falta de confiança, demoram muito para sair do papel e surtir efeitos. Seus investimentos só serão relevantes na diminuição do desemprego a médio e longo prazos. Há esperanças no campo do petróleo e gás, após a liberalização feita na lei que rege o setor. É possível revigorar áreas com resposta mais rápida, como saneamento e construção civil, com ênfase em empreendimentos habitacionais. Já há movimentos nessa direção.

A indústria ainda conta com um grau de ociosidade alto, o que dificulta contratações. Mas, num momento em que a demanda interna patina, alguns segmentos podem ter nas exportações o caminho natural para que as empresas retomem a produção, recuperem-se financeiramente e criem empregos. São exemplos de setores que têm muito a ganhar voltando sua operação ao mercado externo o automobilístico, o de calçados e o de aço. A área calçadista é a que tem melhor expectativa de empregos nos próximos meses. É preciso, pois, assegurar a rentabilidade dos exportadores.

Apesar do alto grau de endividamento das famílias, o consumo pode melhorar um pouco com a queda das taxas de juros pelo Banco Central. Mas é preciso dar às empresas condições de renegociar suas dívidas financeiras com os bancos, para que elas ganhem fôlego e possam voltar a ficar em dia com seus compromissos fiscais e trabalhistas. Também é essencial que o BNDES retome o financiamento de longo prazo a custos compatíveis com a atividade industrial.

Pelos indicadores, o Brasil já começou a melhorar, mas o processo será gradual. Quanto mais rápido avançarmos nas medidas citadas aqui, maior será a capacidade de criar empregos. Milhares de empresários identificam oportunidades até nos momentos ruins e estão só à espera de um cenário mais favorável para voltar a investir.

*Empresário, é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

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