À procura de um câmbio que feche as contas

Resultado da conta corrente depende basicamente de a balança comercial ser suficientemente superavitária para compensar o déficit da balança de serviços

Fernando Dantas / RIO, Paula Pacheco / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

O próximo presidente vai administrar uma economia deficitária em relação ao resto do mundo, segundo a projeção praticamente consensual dos economistas. No governo Lula, o País teve superávit em conta corrente nos primeiros cinco anos, déficit inferior a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008 e 2009, e em 2010 caminha para um déficit de 2,5%, segundo a projeção do Itaú Unibanco. Em 2011, é provável que o Brasil trabalhe com déficits em conta corrente entre 3% e 4% do PIB.

O saldo em conta corrente é a soma dos saldos da balança comercial; da balança de serviços, onde estão itens como juros, dividendos, fretes e seguros; e das transferências unilaterais, basicamente remessas de imigrantes. O grosso vem das balanças comercial e de serviços. Nesta segunda, o Brasil é estruturalmente deficitário, em razão de juros e dividendos enviados ao exterior. Assim, o resultado da conta corrente depende basicamente de a balança comercial ser suficientemente superavitária para compensar o déficit de serviços.

O governo Lula começou em 2003 com um saldo comercial de US$ 24,8 bilhões, que cresceu até US$ 46,6 bilhões em 2006.

O sucesso da política econômica, porém, levou a uma aceleração do crescimento que impulsionou as importações até o ponto em que elas começaram a se expandir mais velozmente do que as exportações. O saldo comercial caiu até US$ 25,3 bilhões em 2009, e, desde 2008, já não é suficiente para tornar a conta corrente superavitária.

A equipe econômica do novo presidente, portanto, vai se ver, logo na saída, diante do dilema de aceitar a dependência brasileira do financiamento do resto do mundo, representada pelo déficit em conta corrente, ou tentar empreender uma mudança bastante radical para alterar esse quadro.

Dado o sucesso do modelo de câmbio flutuante e metas da inflação, a maior parte dos analistas considera improvável que o novo governo opte pela segunda opção. Mesmo as constantes críticas do candidato do PSDB, José Serra, ao câmbio valorizado, uma importante consequência da receita econômica atual do Brasil, não são vistas como uma ameaça real ao atual modelo.

"Não há controvérsia nestas eleições sobre o regime cambial, fiscal e monetário, e isso é um enorme avanço, um amadurecimento da discussão econômica muito forte", diz Darwin Dib, economista do Departamento de Pesquisa do Itaú Unibanco.

Em um relatório de novembro do ano passado, o Itaú Unibanco fez uma análise das contas externas, com o horizonte em 2020. A visão básica, que se mantém, é a de que o déficit em conta corrente atingirá o nível de 4% do PIB num prazo relativamente curto, e deve ficar próximo desse patamar por alguns anos, recuando depois para o nível de 3%. Hoje, as projeções oficiais do banco são de 3,7% para 2011 e 4% para 2012.

Dib acha que o déficit em conta corrente reflete a disposição do mundo em financiar o aumento da taxa brasileira de investimentos do atual nível de 19% do PIB para algo em torno de 22%. Isso, por sua vez, está ligado a grandes oportunidades de negócios rentáveis em áreas como consumo popular, petróleo do pré-sal e infraestrutura.

Particularmente, a preparação para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 deve acelerar os investimentos. Ele considera que o câmbio flutuante levaria a uma desvalorização automática e não traumática, caso o déficit em conta corrente se tornasse excessivo em relação à capacidade de o Brasil obter financiamento internacional.

Alguns economistas, porém, se preocupam com a valorização do real - tipicamente, a moeda forte corresponde à fase em que um país consegue financiar bem o seu déficit em conta corrente, já que o câmbio valorizado significa que o dinheiro externo está entrando em volumes mais do que suficientes.

Vida real. O câmbio é um problema de grandes proporções para as empresas exportadoras. A Cutrale, processadora de suco de laranja, é uma das afetadas. Segundo Carlos Viacava, diretor corporativo da empresa, o ideal seria que o câmbio estivesse na casa dos R$ 2,20 a R$ 2,30. "Essa política cambial é trágica para o agronegócio. A economia brasileira sofre com um dólar tão baixo."

Para David Kupfer, coordenador do grupo de indústria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o nível atual do câmbio está muito valorizado, o que é prejudicial. "A desindustrialização, que não é tão visível, será inevitável com a manutenção dessa situação cambial atual."

Marlin Kohlrausch, presidente da Bibi, de calçados infantis, lamenta a taxa cambial. Com a valorização do real, suas exportações caíram cerca de 50% nos últimos anos. "Tentamos compensar com o mercado interno, mas as perdas são grandes. As exportações, que antes representavam 25% do faturamento, hoje colaboram com apenas 15%."

Para Herbert Karly, presidente da Madal Palfinger, indústria de guindastes, o dólar baixo é ruim para a estratégia de exportação da empresa. "Passamos a importar mais matéria-prima. A redução de custo ajudou a compensar as perdas."

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