'A produção no Brasil não sofrerá de imediato'

Para a Agência Internacional de Energia (AIE), a queda dos preços não estava fora dos radares. É o que afirmou Antoine Halff, diretor da Divisão de Indústria do Petróleo e de Mercados da instituição, que tem sede em Paris. Ele deu a seguinte entrevista para o Estado:

Entrevista com

Antoine Halff

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2014 | 02h02

Qual é o seu diagnóstico sobre as causas da queda do preço do petróleo?

Há três fatores de base: alta do dólar, que levou muitos investidores a fazerem currency hedge (proteção financeira) no petróleo; o aumento da oferta muito rápida, de quase 3 milhões de barris de petróleo anuais no curso dos últimos meses, o que é o fruto do desenvolvimento de novas tecnologias e investimentos sobre a produção não convencional nos Estados Unidos, Canadá e outros países nos últimos anos; e o aumento da produção anual nos países da Opep, que estava limitada por problemas na Líbia e no Iraque. Nos últimos tempos o que vimos foi uma recuperação parcial da produção na Líbia e de um tanto no Iraque.

Muito se especula sobre as razões que levaram a Arábia Saudita a bloquear na Opep uma intervenção no mercado. O sr. vê nisso uma decisão mais política ou econômica?

Seria melhor fazer essa pergunta à Opep, mas creio que há várias formas de compreender a decisão da organização, que é econômica. Seria muito difícil para os países da Opep entrar em acordo sobre um corte da produção, porque seria necessário reparti-lo entre os países-membros, o que exige um sistema de cotas por país que a organização suspendeu em novembro de 2011. Toda decisão de baixar o teto da produção implicaria discutir como distribuir essa tarefa e chegar a um acordo parece ter sido impossível.

Quais são as mais vulneráveis à queda dos preços?

Não posso falar em exemplos. Há dois efeitos da baixa de preços, distantes, mas ligados um ao outro: constituir um desafio para a produção a alto custo, que se torna menos rentável em um ambiente de custo baixo; e atingir o chamado social break-even, a ideia de que certos países produtores têm necessidade de preços altos para financiar seus orçamentos. A baixa do preço coloca em questão esses dois fatores, por isso representa uma ameaça à estabilidade política e social de alguns países.

Logo com efeitos políticos fortes.

Sim, sem dúvida.

Prejudicar a "produção a alto custo" seria um problema para o Brasil, que tem de explorar jazidas no pré-sal?

Sim, para o Brasil é um problema porque a baixa do preço representa um problema para investimentos de exploração de alto custo. Mas é preciso distinguir o impacto sobre investimentos futuro do impacto sobre a produção de curto prazo. Não sabemos como acontecerá nos EUA, por exemplo, porque o atual modelo americano ainda não foi testado. Não temos precedente. Mas há países produtores que terão rendimentos menos importantes.

O sr. vê impactos de mais longo prazo no Brasil, então.

Sim, seria mais nos investimentos de longo prazo, que poderão ser retardados ou que ficarão a risco. Mas sobre as concessões imediatas não creio que haja problemas, porque os investimentos já foram realizados. É o contrário do que se passa nos Estados Unidos. A produção no Brasil nas áreas já concedidas será feita mesmo em um quadro de baixa de preço. Logo os efeitos não serão sentidos antes de cinco a dez anos. Não acreditamos que a produção sofrerá de imediato no Brasil.

Os mais beneficiados serão países que importam o combustível, certo?

Sim. Mas, em termos de consumo, há diferentes configurações de preço. Para os produtores é ruim. Para os consumidores, a situação é um pouco diferente. Em geral, a baixa do preço resulta em aumento do consumo. Mas essa análise vale para economias em crescimento com inflação. Hoje, os países do Ocidente e da OCDE registram crescimento muito baixo, alguns com baixa do poder aquisitivo e com um ambiente de deflação. Esses fatores podem anular os efeitos positivos da baixa de preços.

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