A promessa perdida do euro

O sonho de uma unidade monetária em toda a Europa se tornou um pesadelo. Liderados por França e Alemanha, países europeus decidiram gastar quantias colossais do dinheiro dos contribuintes para sanar as crescentes disparidades internas impossíveis de ocultar com o objetivo de escorar um edifício que, segundo o que muitos acreditam, não será capaz de se manter de pé.

Artigo, DAVID MARSH, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Há pouco mais de uma semana, líderes da União Europeia (UE) aprovaram um pacote de salvamento de 750 bilhões para os membros mais fracos, como Grécia, Portugal e Espanha, respaldados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A atual crise se estende muito além de suas causas imediatas: decisões erradas de Atenas, falta de liderança europeia e uma economia fraca. Essas são apenas as mais recentes contorções num drama que começou há mais de duas décadas.

A história subjacente de como 16 moedas europeias distintas foram fundidas no euro combina as fortunas retorcidas de dois poderosos políticos alemães que tentaram domar o passado da Europa e moldar seu futuro, junto com um presidente francês que desejava apertar algemas econômicas em torno do poderio de uma Alemanha unificada. Por último, é também a história de como o Velho Continente lutou para se desvencilhar do abraço político e econômico incerto dos Estados Unidos.

O momento decisivo na formação da união monetária da Europa veio em dezembro de 1991, numa reunião em Maastricht, no sul da Holanda. Dois anos após a queda do Muro de Berlim, líderes europeus estabeleceram um caminho político rumo a uma moeda comum europeia - um Santo Graal que vinha sendo perseguido desde o Império Romano. O novo dinheiro rivalizaria com o dólar como moeda de reserva internacional e impediria o domínio da Europa por uma Alemanha ampliada.

Na vanguarda da iniciativa estava ninguém menos do que o chanceler Helmut Kohl, o homem que promoveu a reunificação alemã. Ele sabia que precisava proteger a grande Alemanha numa nova ordem europeia para amenizar temores dos vizinhos.

Para crédito próprio, pouco antes da reunião de Maastricht, Kohl destacou que uma união monetária sem uma união política seria "um castelo erguido no ar". Seu comentário ecoou as preocupações do BundesBank, o banco central independente de seu país, que temia o fracasso na ausência de uma maior disciplina política e econômica.

É claro, o BundesBank também relutou em ceder seu domínio sobre as questões monetárias europeias para um novo Banco Central Europeu.

Ainda assim, Kohl lutou pela união monetária, e o euro estreou na data prevista, três meses após a derrota do chanceler nas eleições. (Onze países adotaram a moeda no dia 1.º de janeiro de 1999; outros cinco, entre eles a Grécia, adotaram a moeda posteriormente.)

O parceiro de Kohl no redesenho dos contornos da Europa foi o presidente francês François Mitterrand, que forneceu ao chanceler alemão o incentivo político para criar a união monetária, argumentando que uma Alemanha unificada teria de participar de uma integração europeia mais profunda. Kohl concordou, mas, encorajado pelo BundesBank, aplicou condições que até hoje são muito incômodas para a França - principalmente o fato de a nova moeda ser administrada pelo BCE que seria tão independente quanto o Bundesbank.

O terceiro personagem da história do euro é Wolfgang Schäuble, o ministro alemão de Finanças. Ele foi ministro de Kohl, aplicando conivência e cálculo nas negociações com a Alemanha Oriental e, posteriormente, como ministro do Interior, negociando o tratado de reunificação. Schäuble desempenhou papel central na realização do desejo de Kohl de que a nova Alemanha fosse integrada a uma nova Europa pelo poder de ligação de uma moeda comum. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK E AUGUSTO CALIL

É PRESIDENTE DE UMA EMPRESA DE CONSULTORIA INTERNACIONAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.