carteira

As ações mais recomendadas para dezembro, segundo 10 corretoras

A próspera Noruega dá uma lição de como conduzir a economia

Exportador de petróleo e dono de fundo soberano de US$ 300 bi, país cresceu 3% em 2008, apesar da freada global

Landon Thomas Jr., New York Times, OSLO, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Quando o capitalismo parecia estar à beira do colapso, no fim de 2008, Kristin Halworsen, ministra das Finanças da Noruega, que não acredita no livre mercado, fez mais do que reclamar. Quando os investidores em todo o mundo, dominados pelo pânico, começaram a vender ativos, Halworsen foi contra a corrente e autorizou o fundo soberano de US$ 300 bilhões da Noruega a aumentar o programa de compra de ações em US$ 60 bilhões - cerca de 23% da produção da Noruega. "A época não é tão ruim assim", disse ela, sorrindo com satisfação com a corrida às bolsas em todo o mundo, que começou no início de março. A crise financeira global derrubou as economias de praticamente todos os países do mundo. Mas não a da Noruega. Com esse espírito estranho de contradição, tão enraizado como os seus fiordes encravados na paisagem acidentada, a Noruega prosperou à sua maneira. Quando outros países gastavam à vontade, ela poupava. Quando quiseram limitar o papel do Estado, o país fortaleceu seu Estado, ao qual ela se mantém perenemente fiel. E em meio à pior desaceleração econômica mundial desde a Depressão, a economia norueguesa cresceu em 2008 pouco menos de 3%. O governo ostenta um superávit de orçamento de 11% e não contabiliza dívidas. Em comparação, os Estados Unidos devem acumular um déficit fiscal este ano equivalente a 12,9% do Produto Interno Bruto (PI), e elevar sua dívida para US$11 trilhões, ou 65% do total da sua economia. A Noruega é um país relativamente pequeno, com uma população bastante homogênea de 4,6 milhões de habitantes e tem a vantagem de ser uma grande exportadora de petróleo. Contabilizou uma receita vinda do petróleo de US$ 68 bilhões no ano passado, quando os preços do barril subiram para níveis recorde. Apesar de os preços do petróleo terem caído dramaticamente, o governo não está preocupado. Isso porque a Noruega evitou cair na usual armadilha que hoje aflige países ricos em energia. Em vez de despender suas riquezas prodigamente, aprovou legislação estabelecendo que as receitas do petróleo vão diretamente para o seu fundo soberano, dinheiro do Estado que é usado para fazer investimentos no exterior. Agora esse fundo está perto de se tornar o maior do mundo, apesar de ter contabilizado uma perda de 23% no ano passado, por causa da queda dos investimentos. A relativa frugalidade da Noruega contrasta fortemente com a Grã-Bretanha, que gastou a maior parte das suas receitas do petróleo do Mar do Norte, e ainda mais, nos anos de prosperidade. Os gastos do governo subiram de 42% para 47% do PIB, em 2003. Comparativamente, a despesa pública da Noruega caiu de 48% para 40% do seu PIB. "Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha não têm sentimento de culpa", disse Anders Aslund, especializado na Escandinávia e que trabalha no Peterson Institute for Internacional Economics, em Washington. "Mas na Noruega, existe um senso de virtude. Se você recebe muito, tem de ter responsabilidade." Eirik Wekre, economista que escreve romances policiais no seu tempo livre, descreve como os noruegueses se sentem com relação a uma dívida: "Não podemos gastar este dinheiro agora; ele estaria sendo roubado das gerações futuras".Eirik, que pagou sua casa e seu carro em dinheiro, atribui esse amplo consenso ao espírito iconoclasta do país. "O homem mais forte é o que está sozinho do mundo", disse ele, citando o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Ibsen, porém, teria de admitir que é mais fácil ficar sozinho quando o seu país é beneficiado por reservas de petróleo que fazem dele o terceiro maior exportador do mundo. O dinheiro obtido com a venda do óleo na década de 70 ajudou o mais austero dos noruegueses a relaxar e desfrutar a grande fortuna. O PIB per capita do país é de US$ 52 mil, ficando atrás só de Luxemburgo entre os países industrializados. Algumas pessoas se preocupam que, embora uma cabana na floresta e um barco possam não se aproximar dos excessos vistos em Nova York e Londres, a riqueza do petróleo e a magnanimidade do Estado podem ter corrompido a ética no trabalho que sempre foi tão vigorosa. Segundo Knut Anton Mork, economista do Handelsbanken, em Oslo, recente estudo concluiu que os noruegueses trabalham menos horas do que em qualquer outro lugar do mundo. "Nós nos tornamos complacentes. Construímos cada vez mais casas para passar férias. Temos mais feriados do que em muitos outros países, recebemos benefícios e temos políticas de afastamento por doença extremamente generosos. Um dia o sonho vai acabar." Mas esse dia está bem distante. No momento o ar é limpo, há trabalho para todos e a assistência do governo é onipresente - mesmo para os marginalizados.Perto do Banco Central da Noruega, por exemplo, Pul Bruum pega uma injeção cheia de anfetaminas e aplica no braço. Suas feridas e as dores revelam os muitos anos de vício em heroína. Ele diz que os US$ 1.500 que recebe mensalmente do governo é o suficiente para se alimentar e comprar a droga. Ele diz que nunca trabalhou e reconhece que não está em situação de arranjar emprego. Para a ministra das Finanças Kristin Halvorsen, mesmo esse lado oculto do sonho norueguês parece bom, comparado com o pesadelo econômico em outras partes do mundo. "Como socialista, sempre digo que o mercado não consegue se regular por si mesmo. Mas me surpreendi com a magnitude do colapso."NÚMEROSUS$ 300 bilhõesÉ o tamanho do Fundo Soberano da Noruega4,6 milhõesÉ a o número de habitantes da NoruegaUS$ 68 bilhõesFoi quanto o país obteve no ano passado com a venda de petróleo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.