EDUARDO BRAZ
EDUARDO BRAZ

A 'Provence' que floresce no sul de Minas

Em Camanducaia, Fernando Amaral, osmólogo e CEO da WNF, planta lavanda brasileira para extrair óleo essencial, usado em inúmeras formulações

Márcia De Chiara, O estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 05h00

Está nascendo no sertão de Camanducaia, no extremo sul de Minas Gerais, um embrião do que pode vir a ser algo parecido com a Provence, região da França conhecida pela beleza dos campos de cultivo de lavanda. O protagonista desse movimento é o pentacampeão de skate Fernando Amaral, dono da Fazenda das Lavandas e CEO da WNF, a maior empresa do País de óleos essenciais usados na aromaterapia.

Trinta anos atrás, quando Amaral, à época com 22 anos, foi competir na Europa, sua vida começou a mudar como numa manobra do esporte preferido. Lá conheceu uma suíça, teve um filho, casou-se e foi trabalhar numa fazenda de plantas aromáticas e medicinais. “A lavanda foi uma das 400 plantas aromáticas com que tive contato na Suíça”, diz.

O trabalho na fazenda e a amizade com seu chefe abriram as portas para que se tornasse aprendiz de óleos essenciais. Cursou osmologia, ciência que permite identificar as moléculas encontradas nos aromas e seu uso específico.

De volta ao Brasil em 1997, abriu a WNF. Começou como representação de um laboratório suíço que produzia óleos aromáticos. O negócio não foi para frente porque o produto era caro. Passou a importar os óleos, envasá-los localmente, para vendê-los a farmácias de manipulação. “Fui trabalhando o mercado, ensinando a usar óleos e essenciais com funções diferentes”, lembra.

Em 1998, comprou 53 hectares no distrito de Monte Verde, no município de Camanducaia. Enquanto não tinha capital para iniciar o cultivo de ervas aromáticas, arrendou a terra para produtores locais que plantavam feijão, enriquecendo o solo de nitrogênio. Em paralelo, começou a reflorestar a área e implementar as bases futuras de um cultivo biológico, orgânico e com baixa emissão de carbono. Era um modo de exploração da terra diferente do antigo proprietário, que se ocupava da pecuária e usava queimadas para limpar o solo.

O plantio de lavanda começou na Fazenda das Lavandas em 2004, de quatro mudas oferecidas por uma senhora que Amaral conheceu ao dar uma palestra sobre aromaterapia no Vale do Matutu (MG). Ela lhe apresentou a lavanda brasileira cujo nome científico é Lavandula Dentata. É uma espécie selvagem francesa, segundo Amaral, que se adaptou tão bem ao País, que floresce a maior parte do ano.

Hoje o empresário cultiva 1 milhão de pés de lavanda brasileira na fazenda e em três arrendamentos. É uma lavoura onde o plantio e a poda das flores são manuais. Atualmente, 18 famílias trabalham na produção. Diferentemente de outras áreas de cultivo no País, voltadas para o turismo e uma produção artesanal de aromas, a fazenda de Amaral é fechada a visitação de turistas e focada na extração do óleo essencial em grande escala.

Das 500 toneladas de lavanda colhidas por ano, são extraídos 500 quilos de óleo essencial, um produto cujo litro chega a custar US$ 150, cerca de R$ 800 para as indústrias e farmácias de manipulação. “Esse é o óleo essencial mais caro que eu produzo”, diz. Além da lavanda, Amaral cultiva 2 milhões de pés de alecrim, dos quais retira 1,5 tonelada de óleo por ano.

A maior parte do óleos essenciais da fazenda é usada na produção de sabonetes, xampus, cremes terapêuticos do próprio grupo WNF. Os produtos são vendidos no mercado interno e exportados para 25 países. O faturamento anual é de R$ 35 milhões (os óleos essenciais respondem por 5%).

Já uma pequena parcela de óleo de lavanda é comercializada para a Symrise, uma das maiores casas de perfumaria do mundo. “Uma empresa como a Symrise, que faz fragrâncias para Guerlain, eleger um fornecedor nacional é porque o nosso produto é bom”, frisa.  

É da Symrise que a brasileira Davene, tradicional fabricante de cosméticos, compra a fragrância para a linha de lavanda brasileira, lançada em 2019. Hoje essa linha, pioneira em lavanda brasileira, responde por 10% do faturamento dos produtos premium da empresa. De janeiro a setembro, a produção da linha de lavanda cresceu 30% em relação ao mesmo período de 2020 e a expectativa é encerrar o ano com avanço de 50%.

“A lavanda é um ingrediente muito estabilizado, bem aceito no mercado brasileiro, tanto para higiene pessoal como para limpeza”, afirma o perfumista Tiago Motta, da Takasago, casa de fragrância japonesa. Ele explica que o aroma está muito associado ao bem estar, relaxamento. Ele lembra que há grandes clássicos da perfumaria que levam a assinatura de lavanda. Quanto à lavanda brasileira, a sua percepção é que ela é mais usada  em aromaterapia.

Expansão

 Amaral conta que todo os anos tem ampliado entre 20% a 30% a plantação de lavanda, arrendando antigas áreas de pecuária, eucalipto ou que simplesmente estavam abandonadas. Ele diz que já não há como expandir o cultivo na mesma área e tem procurado achar uma nova comunidade para fomentar com o plantio da lavanda brasileira a economia local. No momento, conta que tem três novos produtores: um no Paraná, outro na região de Campinas (SP) e mais um em Minas, todos localizados em áreas de clima mais frio.

“Estamos 200 anos atrasados em relação à Provence, onde há cerca de 40 mil famílias plantando lavanda, mas acredito que esse modelo de negócio cai muito bem no Brasil”, diz  Amaral. Ele argumenta que aqui há muitas pequenas propriedades, onde não se tem um leque de opções do que se produzir e o óleo essencial extraído da lavada  se encaixa nessas propriedades, pois tem um valor agregado alto.  Além disso, o empresário lembra que existem no País gigantes do setor de cosméticos com potencial apetite para comprar localmente essas matérias primas, especialmente diante do cenário atual de grande volatilidade do câmbio.

 

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