Daniel Teixeira/Estadão
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A próxima Magalu

Toda a sociedade se beneficia de medidas como a da Magalu de criar trainee só para negros

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 04h00

Com uma valorização rápida e expressiva de quase 9.000% na Bolsa nos últimos quatro anos, o Magazine Luiza virou tema de uma enormidade de textos e vídeos para investidores na internet. Tornou-se clichê falar de uma ação como “a próxima Magalu”. Nos últimos dias, a empresa agitou o noticiário por outro motivo: o anúncio de um programa trainee exclusivo para negros.

Nas redes, muitos usuários (e robôs) atacaram a companhia – alguns falaram em “racismo reverso”. Em comunicado, a empresa afirmou que há poucos pretos e pardos nos seus cargos de liderança, o que a motivou a lançar a iniciativa para jovens negros. O problema da inclusão do jovem negro no mercado de trabalho é de fato gigante: dentre os jovens adultos negros, 35% vive abaixo da linha da pobreza, proporção que supera os 40% no caso das mulheres – segundo os cálculos do pesquisador Daniel Duque.

Toda a sociedade se beneficia de medidas como a da varejista. Isto não é um chavão: é um argumento apoiado na moderna pesquisa econômica. O talento de ampla parcela da população não é aproveitado quando jovens deixam de escolher uma carreira que melhor usaria suas aptidões porque não se reconhecem nela. 

A sociedade fica assim privada de pessoas talentosas em diversas profissões. Políticas públicas, como ações afirmativas, e iniciativas de particulares, como no caso do programa trainee, ampliam a participação de minorias em funções que elas não costumam ocupar, incentivando outros a perseguirem este caminho.

O argumento é bem resumido pelo Prêmio Nobel George Akerlof e a professora Rachel Kranton, de Duke: “Quanto mais negros superarem os efeitos negativos da discriminação e se integrarem, mais confortáveis outros negros estarão em tomar a mesma decisão”. 

Os dois desenvolveram um novo modelo para explicar desigualdades como a de gênero e a racial: apresentado no livro A Economia da Identidade, apontam que normas sociais afetam as escolhas de trabalho de grupos vulneráveis, limitando seu potencial. Imagine um rapaz negro, possível arquiteto, que não se vislumbra na faculdade e vai empregar seu talento apenas como carpinteiro.

Já um conjunto de pesquisadores de Chicago e Stanford, em estudo publicado no ano passado no famoso periódico Econometrica, quantificaram a distorção. Entre 1960 e 2010, entre 20% e 40% do crescimento do PIB per capita americano teria sido decorrente da alocação mais eficiente do talento. Isto é, maior participação de negros e mulheres em funções antes exercidas apenas por homens brancos. Assina o trabalho o professor Charles Jones, um dos principais autores sobre crescimento econômico.

Por sua vez, o modelo matemático de Mark Gradstein, da Universidade Bem Gurion de Israel, descreve como a sub-representação de populações excluídas implica um custo econômico. Ele decorre de um círculo vicioso em que a sub-representação desincentiva o investimento em qualificação para uma ocupação, o que por sua vez leva à sub-representação nela e assim vai. Publicado na European Economic Review também em 2019, ele conclui que o resultado desse “feedback mútuo” pode ser uma economia mais pobre, e em que os melhores empregos ficam concentrados em um grupo que foi inicialmente privilegiado. 

Como ressalta a economista belga Marianne Bertrand, a questão não é apenas de desigualdade, mas também de eficiência. Quanto vale para o País um Joaquim Barbosa, uma Maju Coutinho? Quanto talento se desloca pela sensação de possibilidade de exemplos como estes evidentes na TV?

Portanto, discriminação e outras barreiras que influenciam nas escolhas de vida de negros prejudicam os próprios brancos. Nossa sociedade fica sem contar com médicos engenhosos, juízes sábios, empreendedores inventivos. Políticos argutos, escritores brilhantes ou engenheiros geniais que simplesmente deixam de ser formados. Medidas inclusivas como o trainee para negros não trazem ganhos apenas à empresa específica, que se beneficiará da força de trabalho mais diversa. Se adotadas por mais companhias, os ganhos para o País se multiplicarão. Quem será a próxima Magalu?

*DOUTOR EM ECONOMIA 

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