A próxima onda

A demanda por motocicletas, celulares, eletrodomésticos, entre outros bens de consumo, gerada pelo aumento da renda da população brasileira de classes D e E, como reflexo das políticas de combate à pobreza que vêm sendo introduzidas no Brasil desde o início dos anos 90(1), atenuou o impacto da crise sobre a nossa economia. Mas é necessário aprofundar a reflexão sobre o significado do aumento do poder de compra desse grupo, fenômeno que está ocorrendo em escala global. Ele tem decorrido de processos de urbanização e de políticas de renda similares às nossas e que vêm sendo aplicadas em países populosos, como Índia, China e México - relação que pode crescer, na medida em que outros países têm buscado aderir às metas de redução da pobreza definidas desde 2000, pela Declaração do Milênio (ONU)(2).

Patrícia Marrone, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

A população mundial está estimada em 6,8 bilhões de pessoas, de acordo com o U.S. Census Bureau. Dessas, segundo estimativas do Banco Mundial, 79,7% (ou 95% da população dos países em desenvolvimento) vivem com menos que US$ 10 por dia (ver Martin Ravallion, Shaohua Chen and Prem Sangraula, Dollar a Day Revisited, World Bank, maio/2008).

Ou seja, 5,4 bilhões de pessoas vivem com US$ 300 - o equivalente a R$ 510 - mensais ou menos.

O Banco Mundial tem periodicamente revisto suas estatísticas que tratam de medidas de pobreza, em razão do aumento do custo de vida na maior parte dos países em desenvolvimento - destacando-se entre eles os com alimentação, energia e habitação, para a maior parte dos países - e de acesso à água potável para alguns países, como o México. De 2000 a 2010, 227 milhões de habitantes de países em desenvolvimento deixaram de viver em favelas. Apesar da conquista, 828 milhões de pessoas, ou 32% da população urbana desses países, ainda vivem nessas aglomerações urbanas, segundo dados da State of the World"s Cities 2010/2011 (UN-Habitat).

A Índia, onde 367 milhões de pessoas vivem em favelas e a migração para cidades continuará, abriu um enorme mercado para a busca de soluções para a habitação de baixa renda e de gerenciamento de processos na área de saneamento básico. O governo daquele país investirá US$ 100 bilhões até 2015 em infraestrutura urbana para o gerenciamento de água e resíduos sólidos.

A política industrial chinesa também busca soluções para reduzir a pressão sobre a necessidade de moradia decorrente da urbanização e visando a reduzir o consumo de água.

A crise levou ao fortalecimento do papel dos governos e ao ressurgimento do interesse dos países desenvolvidos em formular políticas industriais. Mas o Primeiro Mundo provavelmente continuará a buscar o mercado dos 20% dos habitantes do planeta que vivem com mais que US$ 300 mensais, em que reside maior poder de compra.

O Brasil tem 192 milhões de habitantes, dos quais 161 milhões de pessoas (84% de sua população) vivem em áreas urbanas, em 50 milhões de domicílios permanentes urbanos. Desses, 23,6 milhões - ou seja, quase a metade - são habitados por pessoas que recebem até um salário mínimo, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2009, do IBGE. O Censo de 2000 ainda apontava para a cifra de 12 milhões de pessoas vivendo em favelas no Brasil. Segundo estimativas da ONU, em 2010, entre os habitantes de áreas urbanas no País, aproximadamente 26,4%, ou 42,5 milhões de pessoas, vivem hoje em favelas (estimativas da State of the World"s Cities 2010/2011). O Censo 2010 nos trará dados mais atuais sobre o tema.

As despesas com habitação consomem 39% da renda das famílias que vivem em áreas urbanas e recebem até R$ 830. Em seguida vem a alimentação, que consome 26%; transporte, com 8,8%; e saúde, que responde por 5,5% das despesas (Pnad). A experiência brasileira pós-crise mostrou que qualquer aumento da renda no contingente mais pobre surte enorme efeito anticíclico. Assim, medidas que objetivem reduzir as despesas dessas famílias provavelmente surtirão o mesmo efeito.

Hoje, vários países com grandes populações passam por processos de urbanização muito fortes, o que tem fortalecido, num primeiro momento, apenas a demanda por bens de salário, de produção da indústria extrativa, da transformação primária e siderurgia. Mas, numa próxima onda, o processo fortalecerá a demanda por soluções que aumentem a renda disponível dos mais pobres.

Destaco a necessidade de, no âmbito da política industrial do próximo governo, desenvolver produtos e soluções - preferivelmente sustentáveis - direcionados para atender ao enorme contingente de novos consumidores, tendo como público alvo as classes D e E, no Brasil e em outros países em desenvolvimento.

O estímulo às inovações poderá ocorrer por meio de políticas de compras governamentais, financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), direcionamento das disciplinas nas universidades e das pesquisas para o desenvolvimento, por exemplo, de sistemas modulares de construção civil, soluções físicas e químicas de baixo custo para o saneamento em áreas onde o sistema público não é acessível, soluções sustentáveis na captação, uso e reúso de água, como filtros, válvulas e bombas de uso doméstico, entre tantos outros produtos.

(1) Projeto de Lei da Câmara n.º 2.661, de 1992 (PLS 80/91), que pretendia instituir o Programa de Garantia de Renda Mínima. Benefício de Prestação Continuada (1993), Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (1996) e Programa Comunidade Solidária (1995), Bolsa-Escola (2001), Bolsa-Alimentação (2001), Auxílio-Gás (2002), Cartão Alimentação (2003) e Bolsa-Família (2003).

(2) Em 2000 foi lançada pela ONU a Declaração do Milênio - plano de ação global com oito objetivos, monitorado por 48 indicadores a serem alcançados até 2015. Entre os objetivos se destaca a erradicação da extrema pobreza e da fome em escala mundial (ONU, 2010).

ECONOMISTA, MESTRE PELA USP, É SÓCIA DA CONSULTORIA WEBSETORIAL E COORDENA O DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DE OITO ENTIDADES DE CLASSE PATRONAIS

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