Bloomberg/Jason Alden
Bloomberg/Jason Alden

A próxima revolução capitalista

O poder do mercado está por trás de vários males da economia; é hora de voltar à competição e reduzir lucros abusivos

The Economist

17 de novembro de 2018 | 05h00

A reputação do capitalismo sofreu uma série de duros golpes na última década. A sensação de que se trata de um sistema voltado para beneficiar os donos do capital em detrimento dos trabalhadores é profunda. Uma pesquisa de 2016 concluiu que mais da metade dos jovens americanos não defende mais o capitalismo. Essa perda de fé é perigosa, mas também é um alerta. O capitalismo enfrenta hoje um problema real, não daqueles que protecionistas e populistas gostam de citar. A vida na antiga economia ficou confortável demais para algumas empresas, enquanto na nova economia empresas de tecnologia adquiriram rapidamente grande poder de mercado.

Uma revolução se faz necessária – uma que libere a competição, reduza lucros abusivos e garanta que a inovação avance. 

Competição, claro, não é novidade. No início do século 20, os Estados Unidos quebraram monopólios nos campos ferroviário e energético. Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Ocidental fez da criação de mercados competitivos a base de seu projeto de construção nacional. O estabelecimento do mercado único europeu, um projeto liderado por Margaret Thatcher, abriu estagnados mercados domésticos à dinâmica de empresas estrangeiras. Ronald Reagan promoveu a competição por meio da economia americana.

Uma transformação semelhante se faz necessária hoje. Desde 1997, a concentração de mercado aumentou em dois terços das indústrias americanas. Um décimo da economia do país é constituído por indústrias nas quais quatro empresas controlam mais de dois terços do mercado. Numa economia saudável, espera-se que os lucros caiam, mas o fluxo de caixa livre das empresas americanas está 76% acima da média dos últimos 50 anos em relação ao PIB. Na Europa, a tendência é semelhante, embora menos extrema. A fatia média de mercado das quatro maiores empresas em cada ramo industrial cresceu três pontos porcentuais desde 2000. Nos dois continentes, ficou cada vez mais difícil desalojar empresas dominantes. 

Globalização

Os responsáveis pelas empresas minimizam a ideia de que o momento esteja fácil para elas. Embora mercados consolidados dominem nacionalmente, argumentam, a globalização mantém acesa a chama da competição. Entretanto, em setores menos dependentes do comércio, empresas estão tendo lucros enormes. Calcula-se que globalmente os lucros acima do normal cheguem a US$ 660 bilhões – dos quais mais de dois terços vêm dos Estados Unidos e, desses dois terços, um terço vem de empresas de tecnologia. 

Nem todos esses rendimentos são óbvios. Google e Facebook fornecem serviços populares gratuitos aos clientes, mas, com seu controle dos anúncios, eles sutilmente elevam os custos para outras empresas. Muitos setores da antiga economia, com preços altos e grandes lucros, movem-se sob a superfície do comércio: cartões de crédito, distribuição farmacêutica e checagem de crédito. Quando o público lida mais diretamente com os oligopólios, o problema fica mais claro. Empresas aéreas protegidas dos Estados Unidos cobram mais que as similares europeias, embora tenham serviços piores. Companhias de TV a cabo são conhecidas pelos preços altos: seus clientes nos Estados Unidos gastam hoje 44% a mais do que em 2011. Em alguns casos, a ira do público abre as portas a novos participantes, como a Netflix. Mas isso não ocorre com frequência. As bolsas de valores consideram “futuros monopólios” mesmo novas empresas tidas como amigas do consumidor, como Netflix e Amazon. 

O poder dos mercados emergentes ajuda a resolver vários quebra-cabeças econômicos. Apesar das baixas taxas de juros, empresas têm reinvestido uma proporção mesquinha de seus enormes lucros. Isso pode estar ocorrendo porque barreiras à competição mantêm fora mesmo competidores bem financiados. Desde o fim do milênio, e sobretudo nos EUA, os salários vêm caindo em relação ao PIB. Preços monopolizados também podem ter possibilitado que empresas poderosas enfraquecessem gradualmente o poder de compra dos salários. Eles vêm caindo mais rapidamente em indústrias com concentração crescente. Um terceiro quebra-cabeça é que o número de novos participantes tem caído e o crescimento da produtividade tem sido fraco. Isso também pode ser explicado pela pouca pressão competitiva para se inovar.

Trabalho

Alguns argumentam que a solução para os excessos do capital é fortalecer o trabalho. Elizabeth Warren, possível candidata à presidência dos EUA, quer mais trabalhadores nas diretorias de empresas. O Partido Trabalhista britânico promete participação acionária compulsória dos empregados. E quase toda a esquerda quer revigorar o poder em declínio dos sindicatos. Há um papel para os sindicatos na economia moderna. Mas a volta ao capitalismo estilo anos 1960, no qual oligopólios inchados tinham grandes lucros, mas tinham de canalizar dinheiro para trabalhadores por medo de greves, é algo a ser evitado. Tolerar lucros abusivos desde que sejam distribuídos de modo a satisfazer àqueles com poder de negociação é receita para favoritismo. Uma economia composta por titulares generosos vai eventualmente enfrentar o colapso da inovação e, portanto, uma estagnação nos padrões de vida. 

O poder do mercado deve ser atacado de três modos. Primeiro, bancos de dados e direitos de propriedade intelectual deveriam ser usados para alimentar a inovação, não os diretores das empresas. Isso poderia significar liberar usuários individuais de serviços de tecnologia para levarem sua informação para outro lugar. Também implica requerer a grandes plataformas que liberem grandes volumes de dados para rivais. Patentes deveriam ser mais raras, de menor duração e mais fáceis de serem contestadas em tribunais. 

Segundo, os governos deveriam derrubar barreiras para ingresso de novos competidores, entre elas, cláusulas de não competição, exigência de licenças ocupacionais e regulações complexas escritas por lobistas da indústria. Mais de 20% dos trabalhadores americanos precisam de licença para exercer suas funções. Nos anos 1950 eram 5%. 

Regulação

Terceiro, leis antitruste têm de ser adaptadas ao século 21. Nada contra combater o truste para promover o bem-estar dos consumidores. Mas os órgãos reguladores deveriam prestar mais atenção ao conjunto da saúde competitiva dos mercados e aos retornos do capital. Órgãos reguladores dos Estados Unidos deveriam ter mais poderes, como os britânicos, para investigar mercados que deixaram de ser funcionais. Gigantes da tecnologia deveriam ter mais dificuldade para neutralizar rivais que possam ameaçá-los no longo prazo, como fez o Facebook ao comprar o Instagram em 2012 e o WhatsApp em 2014.

Essas mudanças não vão resolver todos os problemas. Mas, se servirem para reconduzir o lucro nos Estados Unidos aos níveis históricos normais, e levar os benefícios resultantes aos trabalhadores do setor privado, os salários reais poderiam subir 6%. Consumidores teriam um leque maior de escolhas. A produtividade cresceria. Uma revolução competitiva, mesmo que não detivesse a ascensão do populismo, faria muito para restaurar a fé pública no capitalismo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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