A qualidade do desemprego na indústria

Escrever sobre qualidade do emprego na indústria é algo normal, mas tratar sobre a qualidade do desemprego parece ser estranho. Mas não é, pois há desemprego que só gera pobreza e há desemprego que, no médio e no longo prazos, gera riqueza para o País. Um é fruto da retração econômica e o outro é oriundo da tecnologia.

SÉRGIO AMAD, COSTA, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2014 | 02h04

O desemprego fruto da retração econômica é aquele em que a indústria não elimina o posto de trabalho, mas demite o ocupante do cargo porque a empresa não está tendo chance de competir no mercado. Esse tipo de desemprego é nefasto para a sociedade como um todo. Apenas ajuda a fazer crescer a pobreza do país. O outro tipo de desemprego, fruto da tecnologia, tem uma qualidade bem diferente e é chamado de estrutural. Não ocorre em razão de ambientes empresariais desfavoráveis. Pelo contrário, ele acontece por causa do surgimento de novas formas de organização do trabalho e da produção. Neste caso, a indústria cresce, economicamente, baseada na eliminação de postos de trabalho que são substituídos por novas tecnologias.

Mas o desemprego estrutural não é nefasto para a economia e para a sociedade. Ele gera riqueza, quando a economia cresce o suficiente para absorver as mudanças e para se adequar às inovações nos processos produtivos, educando a sociedade para os novos tipos de trabalho. A história mostra que ele ocorre desde o século 19 e as sociedades vão se adequando às novas formas de produção, criando outras profissões, tipos de trabalho e de emprego.

No início dos anos 2000, os empregados da indústria no Brasil representavam 17,6% no total de pessoas ocupadas. Em 2012, esse número caiu para 16,1% e em 2013, para 15,8%. Estão equivocados os que pensam ser essa queda em razão da substituição, cada vez maior, do emprego pela automação. No caso do Brasil, é a dificuldade econômica que tem gerado essa redução. Ou seja, é a desindustrialização a causa dessa perda de espaço na composição da mão de obra ocupada no País.

Ainda não temos uma indústria altamente tecnológica. Estudos mostram que esse setor, salvo raras exceções, investe pouco em tecnologia, por causa da tradição protecionista do País. Se tomarmos como exemplo a utilização de robôs industriais, ela é escassa. O Brasil tem densidade inferior a 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores na indústria. Pesquisas mostram que a média razoável é de 51 robôs para cada 10 mil trabalhadores, e a referência é o Japão, país mais robotizado do mundo, com 306 robôs para cada 10 mil trabalhadores empregados na indústria.

No Brasil, no ano de 2011, o emprego industrial se elevou em 1%; no ano de 2012, recuou em 1,4%; e em 2013, diminuiu mais 1,1%. E neste ano, de janeiro a julho, recuou 2,6% em relação ao ocorrido em 2013. No caso específico de São Paulo, a indústria demitiu 15 mil trabalhadores no mês passado e, no acumulado deste ano, 31,5 mil perderam o emprego no setor. Projeções para 2014 apontam que as demissões devem superar o número de postos fechados no setor em 2009, que foi da ordem de 100 mil vagas.

As razões que levam ao desemprego na indústria agora verificado são várias: os salários pagos aos funcionários do setor crescem descolados de qualquer razão de produtividade; a política cambial é totalmente desfavorável ao setor; a taxa de juros inibe iniciativas para novos investimentos; a infraestrutura do País, além de parca, está, em muitos casos, ultrapassada; a legislação trabalhista é desatualizada; e o modelo tributário precisa ser reformado.

A crise no emprego, que aos poucos começa a aparecer, é resultado da ausência de uma política industrial consistente, centrada em corrigir as distorções, hoje existentes, nos fatores de competitividade mencionados no parágrafo acima. Essa crise não tem nada que ver, infelizmente, com o crescimento da automação, mas, sim, com a baixa atividade do parque industrial. Esse é o atual desemprego na nossa indústria, cuja qualidade é apenas a de gerar mais pobreza.

É PROFESSOR DE RECURSOS HUMANOS E RELAÇÕES TRABALHISTAS DA FGV-SP

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