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A quarta raiz

A abertura dos Jogos do Rio ajudou a reparar a grave omissão dos principais estudiosos sobre a contribuição dos imigrantes ao Brasil

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2016 | 21h00

A festa de abertura dos Jogos Olímpicos ajudou a reparar uma grave omissão dos principais estudiosos da gênese do povo brasileiro.

Quando incluiu entre os grandes esculpidores da nossa cultura e da nossa economia a importante e até agora incompreensivelmente ignorada contribuição dos imigrantes, a festa de abertura avançou sobre as grandes análises clássicas.

Até hoje se ensina nas escolas que o caldeirão demográfico do Brasil foi construído pela fusão do branco, aí entendido o português descobridor, pelo índio e pelo negro africano. E se esquece dos outros. A partir de meados do século 19, especialmente pela política imigratória desenvolvida pelo então senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, o Brasil recebeu imigrantes da Europa e da Ásia cuja principal função inicial foi substituir a mão de obra escrava. A solenidade de abertura mencionou apenas sírios e japoneses, mas a contribuição de alemães, italianos, espanhóis, poloneses, suíços e, mais recentemente, de chineses e coreanos foi e continua sendo incomensurável.

Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala, e Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, dois dos mais percucientes analistas do DNA cultural do Brasil, mencionam apenas superficialmente os imigrantes e, ainda assim, apenas para concluir que os portugueses apresentaram mais condições do que, por exemplo, franceses, alemães, holandeses e nórdicos para lidar com as adversidades do clima e das endemias. Os demais ignoram esse legado e aí se incluem Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Raimundo Faoro e Darcy Ribeiro.

As contribuições do imigrante ao brasileiro não se limitaram ao uso de botas pelo conformado e fatalista Jeca Tatu depois que o italiano apareceu nas lavouras brasileiras. O imigrante inventou o colonato e trouxe práticas racionais de cultivo até hoje em desenvolvimento. Introduziu no País a nova ética do trabalho, que mudou o jeito de encarar a vida, mudou o jeito de produzir e de buscar em vida a recompensa de quem madruga, sua a camisa e caleja as mãos.

Entre os novos campeões do agronegócio está grande número de sobrenomes estrangeiros. A indústria de transformação foi moldada pelas famílias Matarazzo, Calfat, Gerdau, Bardella, Romi, Nardini, Feffer, Mindlin e tantas e tantas mais.

Nosso maior arquiteto se chamava Niemeyer. Nossa campeã das passarelas, Bündchen. Ambos foram lembrados com os encantamentos da festa de abertura. Niemeyer, por meio das curvas projetadas no cenário; Bündchen, ao vivo, com seu sorriso, graça e curvas.

Apenas nos últimos 50 anos, sete presidentes da República do Brasil ostentaram sobrenomes estrangeiros: Kubitschek, Goulart, Médici, Geisel, Collor, Rousseff e podemos acrescentar o ainda interino Temer.

Quem sabe se, depois que a festa de abertura dos Jogos Olímpicos lembrou aos brasileiros (e não só ao resto do mundo) que a imigração foi um dos elementos que moldaram nossa personalidade, alguém agora se dedique a reescrever a gênese do nosso povo com o elemento até agora ignorado pelos livros-texto.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução das projeções do mercado sobre a inflação e o PIB.

Condução das expectativas

O Banco Central está conseguindo alinhar as expectativas de inflação do mercado. Há seis semanas, as projeções da evolução do IPCA de 2017, tal como medidas pela Pesquisa Focus, estão em queda, já bem mais perto da meta estabelecida pelo Banco Central (4,5%). As expectativas de inflação deste ano, bem mais altas, seguem relativamente mais estáveis. E o mesmo pode-se dizer das demais projeções macroeconômicas.

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