A queda da França

No país combalido, o presidente François Hollande está levando a Europa como um todo ao fracasso e ninguém sabe até que pontoessa situação pode piorar

PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES/O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2014 | 02h04

Na França, o presidente François Hollande, no governo desde 2012, poderia ser um contestador. Ele foi eleito prometendo abandonar as políticas de austeridade que aniquilaram a breve e insuficiente recuperação econômica da Europa. Como a justificativa intelectual para estas políticas é muito frágil ele poderia liderar um bloco de nações exigindo uma mudança de rumo. Mas não conseguiu.

Não significa, porém, que Hollande seja inteiramente um político débil. No início desta semana, ele tomou medidas decisivas, mas infelizmente não no campo da política econômica, embora as desastrosas consequências da austeridade na Europa sejam mais óbvias a cada mês, e mesmo Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, tem insistido numa mudança de rota. Toda a força de Hollande se concentrou no expurgo de membros do seu governo que ousaram questionar sua subserviência a Berlim e Bruxelas.

Leia Também

O que é PIB?

É um espetáculo surpreendente. Para avaliá-lo plenamente, porém, precisamos entender dois aspectos. Em primeiro lugar, a Europa, como um todo, está em sérias dificuldades. Em segundo lugar, dentro desse clima geral de desastre, o desempenho da França é muito melhor do que você imaginaria com base nas notícias que são veiculadas. A França não é a Grécia; nem a Itália. Mas está se deixando intimidar como se fosse um caso perdido.

Na Europa, como nos Estados Unidos, a zona do euro - os 18 países que usam o euro como moeda comum - começou a se recuperar da crise financeira de 2008 em meados de 2009. Mas após a crise da dívida de 2010, algumas nações foram forçadas, como condição para obter empréstimos, a reduzir severamente os gastos e a elevar os impostos da classe trabalhadora.

O BCE, ao contrário do Federal Reserve ou do Banco da Inglaterra, não adotou medidas extraordinárias para impulsionar os gastos privados. Em consequência, a recuperação europeia ficou paralisada em 2011 e desde então nunca mais foi retomada.

Neste momento, a Europa apresenta um desempenho pior do que num período comparável à Grande Depressão. E más notícias ainda estão por vir, uma vez que ela dá sinais de estar entrando numa armadilha deflacionária no estilo japonês.

A França não tem registrado um bom desempenho desde 2008 - e em particular, mantém-se atrás da Alemanha -, mas o crescimento do seu PIB foi muito melhor do que o da média europeia. No campo do emprego, o desempenho francês também não é muito ruim. Na verdade, os jovens têm mais probabilidade de estar empregados na França do que nos Estados Unidos. Tampouco a situação da França parece particularmente frágil. Ela não registra um grande déficit comercial e pode tomar emprestado a taxas de juros historicamente baixas.

Por que, então, a França é tema de tais más notícias? É difícil não suspeitar de que a razão é política: a França tem um governo que interfere muito no setor privado e um programa de previdência e assistência social generoso, o que, segundo a ideologia do livre mercado, causarão um desastre econômico.

E Hollande parece acreditar nessas más línguas motivadas ideologicamente. Pior, ele está num círculo vicioso em que as políticas de austeridade bloqueiam o crescimento e esse crescimento paralisado é apresentado como prova de que o país precisa de mais políticas de austeridade. É lamentável, e não apenas para a França.

Mario Draghi, acho eu, sabe como as coisas estão péssimas. Mas o BCE pode fazer muito pouco e, de qualquer maneira, tem um espaço de manobra exíguo, salvo se os líderes eleitos se dispuserem a contestar a ortodoxia da moeda forte e orçamentos equilibrados. Por outro lado, a Alemanha é incorrigível. Sua resposta oficial às mudanças radicais na França foi uma declaração de que "não existe nenhuma contradição entre consolidação e crescimento" - ou seja, não importa a experiência dos últimos quatro anos, ainda acreditamos que a austeridade pode levar a uma expansão da economia.

A Europa necessita de um líder de uma importante economia - uma economia que não esteja em situação péssima -, que se levante e diga que a austeridade vem aniquilando as perspectivas econômicas do continente. Hollande poderia e deveria ser esse líder, mas não é. E se a economia europeia continuar estagnada ou piorar, em que se transformará o projeto europeu - essa iniciativa de longo prazo para assegurar a paz e a democracia mediante uma prosperidade compartilhada? Na França combalida, Hollande também está levando a Europa como um todo ao fracasso - e ninguém sabe até que ponto a situação pode piorar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
FrançaEconomiaMercado FinanceiroPIB

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.