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A queda da lira

Erdogan não parece ter a menor intenção de tomar as medidas necessárias para conter a crise em seu país

Monica De Bolle, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 04h00

Na verdade, já eram favas contadas que a lira turca sofreria destino semelhante ao do peso argentino. A economia está há tempos em frangalhos, com inflação elevada somada a déficits nas contas públicas e nas contas externas provenientes não apenas da má gestão econômica de Erdogan – na Turquia contemporânea é o presidente quem manda em tudo – mas também dos desequilíbrios causados para que o líder turco consolidasse poder. Há cerca de um ano, houve referendo em que passou o país de uma democracia parlamentar para uma quase não democracia presidencialista. O capital político para tanto foi arregimentado com a abundância de crédito barato para o consumo e com uma boa dose de imprudência fiscal.

Nos próximos 12 meses terá o setor privado, incluindo bancos e empresas, de rolar US$ 142 bilhões em dívidas. Os ativos da Turquia em dólares somam cerca de US$ 100 bilhões – ou seja, não dão conta de cobrir as obrigações financeiras do próximo ano. Boa parte dos credores do país são bancos europeus, o que traz à tona o grande drama da crise atual: caso a Turquia não pague o que deve nos próximos meses sofrerá o setor bancário europeu, ainda frágil. Como se tal drama não bastasse, há ainda o forte componente geopolítico da crise turca. Há poucos dias deflagrou-se intensa crise entre Ancara e Washington após a detenção de um pastor evangélico da Carolina do Sul pelo governo turco e a imposição de sanções econômicas pelo governo Trump.

Mais do que uma perturbação adicional para os investidores já assustados com a situação econômica da Turquia, o embate entre Trump e Erdogan tem boa chance de elevar as tensões entre os EUA e a União Europeia – afinal, a guerra comercial dos dois lados do Atlântico ainda não cessou, tampouco parece próxima do fim. No caso específico da Turquia e ante a exposição do sistema financeiro europeu, tudo o que a Europa não quer é um agravamento da situação econômica do país. Isso, entretanto, é exatamente o que o governo norte-americano está a fazer ao impor as sanções, sem que seja necessário entrar no mérito da questão. Para complicar ainda mais o enredo, com a Turquia sob sanções poucas são as chances de que receba ajuda financeira do FMI caso queira recorrer à instituição como fez a Argentina recentemente. Afinal, para tanto precisaria o governo turco do aval do governo Trump – e os EUA detém poder de veto na estrutura de governança do FMI.

Diante do acima exposto, é possível afirmar algumas coisas sobre a crise turca. Primeiramente, ao contrário da crise argentina, ela é sistêmica – isto é, os problemas turcos não são apenas turcos, mas têm o potencial de atingir bancos europeus. Essa característica da crise turca a torna mais perigosa e aumenta o potencial de que cause turbulências severas e prolongadas nos ativos de outros mercados emergentes, como estamos a ver acontecer no Brasil. Em segundo lugar, a crise turca pode aumentar muito as dúvidas sobre a estabilidade econômica mundial na medida em que se mostre capaz de gerar mais estridências nas relações entre os EUA e a União Europeia. Tais dúvidas elevam o grau de aversão ao risco dos investidores, ou seja, amplificam os temores em relação ao valor dos ativos de países emergentes. Por fim, ao contrário do que demonstrou o governo argentino, Erdogan não parece ter a menor intenção de tomar as medidas necessárias para conter a crise que assola seu país. Em declarações recentes, negou a necessidade de elevar as taxas de juros – em tempo, o ministro da Fazenda é seu genro – e disse que “a lira está sendo atacada por agentes externos” e que há uma “guerra econômica contra Ancara”. O máximo que o presidente permitiu que se fizesse foi um relaxamento dos depósitos compulsórios dos bancos para aumentar a liquidez em circulação, o que quase não pode ser chamado de medida paliativa.

Dez anos depois da pior crise econômica de que se tem memória, a grande crise que poupou todos os países emergentes, parece que estamos voltando para um quadro conhecido de grandes fracassos e enormes turbulências nesses países. A diferença é que da última vez em que passamos por isso, lá nos anos 90, havia uma ordem mundial para aguentar o rojão e resolver os problemas. Essa é a ordem mundial que está hoje ameaçada pela proliferação de populistas e demagogos nos países desenvolvidos. Salve-se quem puder. 

ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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