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A queda do dólar

O ingrediente crucial para apreciação do câmbio é a aceleração do crescimento

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 04h00

A expectativa com o megaleilão de excedentes da cessão onerosa de petróleo e gás na região do pré-sal, marcado para hoje, contribuiu para trazer o dólar de volta abaixo de R$ 4,00, uma vez que se espera que empresas estrangeiras participem da disputa pelos quatro campos que serão ofertados, resultando num grande ingresso da moeda americana.

Na semana passada, o dólar chegou a cair para o patamar de R$ 3,96, o que não acontecia desde agosto. Caso o leilão da cessão onerosa seja um sucesso, há quem diga que o dólar voltará a ceder no curto prazo, mas apenas levemente, recuando, na melhor das hipóteses, para uma faixa entre R$ 3,85 e R$ 3,90.

Seria essa apreciação da moeda brasileira apenas um movimento pontual ou o início de uma tendência de alta diante da perspectiva de um novo ciclo de investimentos?

Apesar de setorial, ninguém duvida que o leilão da cessão onerosa poderá ser um importante cartão de visitas do Brasil para o investidor estrangeiro. Se todos os quatro campos de petróleo ofertados no leilão forem vendidos, o governo vai arrecadar R$ 106 bilhões em bônus de assinaturas. E grande parte desses recursos deverá ser paga de imediato.

Caso haja ágio superior a 5% sobre o excedente mínimo de óleo e gás a ser oferecido para a União, o pagamento do bônus de assinatura será parcelado em duas vezes: em 27 de dezembro deste ano e em 26 de junho de 2020. Com ágio abaixo de 5%, o pagamento terá de ocorrer integralmente em 27 de dezembro.

Em nota a clientes, os analistas do Credit Suisse, comentando o impacto no câmbio do fluxo de capital estrangeiro com o leilão da cessão onerosa, estimam a entrada de, no mínimo, US$ 4,6 bilhões ainda neste ano, com o valor mais provável em torno de US$ 9 bilhões, mas que pode chegar a US$ 18 bilhões se todas as áreas forem leiloadas no lucro mínimo.

“A Petrobrás mostrou interesse nos campos de Búzios e Itapu e, com isso, as estimativas de entrada de recursos externos giram entre US$ 6 bilhões a US$ 18 bilhões somente neste ano, dependendo de como sair o resultado do leilão”, diz Ricardo Kazan, sócio e gestor da Novus Capital. “No ano que vem é possível termos mais entrada de recursos por conta do pagamento da segunda parcela desse leilão, pois alguns campos têm 50% de pagamento até o fim deste ano e outros 75%, dependendo de como será o ágio sobre o excedente de produção.”

A dúvida, por enquanto, é quão forte virão os estrangeiros no leilão, uma vez que duas empresas importantes – a britânica BP e a francesa Total – desistiram de participar.

Olhando para além da cessão onerosa, Kazan acredita que a tendência é de desvalorização do dólar em termos globais – e com isso o real vai se apreciar. “Além do fluxo de entrada de capital, os fatores externos são muito relevantes: aumento de balanço do Federal Reserve, redução do risco Brexit sem acordo e tendência de melhora de curto prazo das relações comerciais entre Estados Unidos e China”, explica.

O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, lembra que o fluxo de capital estrangeiro neste ano está negativo e que, talvez, isso não se repita em 2020, o que pode contribuir para fortalecer o real. Conforme os últimos dados do Banco Central, o fluxo cambial acumulado no ano até o dia 25 de outubro estava negativo em US$ 21,1 bilhões. Em igual período de 2018, houve uma entrada líquida de US$ 18,9 bilhões.

Para Faria Júnior, se o programa de privatização de estatais e os leilões e concessões de infraestrutura forem bem sucedidos em 2020, o fluxo de investimentos no Brasil pode decolar e dar mais fôlego à moeda brasileira. Ele também acredita que a Bolsa brasileira poderá atrair um maior volume de capital estrangeiro – em contraste com a queda do fluxo para operações de renda fixa de curto prazo diante do corte da taxa Selic, tornando menos atrativo o diferencial entre juros brasileiros e internacionais.

O ingrediente crucial para apreciação do câmbio é a aceleração do crescimento da economia, o que, por tabela, injetará confiança e atrairá investimentos. O leilão da cessão onerosa é, todavia, um ponto de partida importante.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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