A queda do preço do petróleo

O mundo vem observando com atenção o comportamento do petróleo, cujo preço já caiu mais de 30% nos últimos cinco meses.

Adriano Pires*

06 Dezembro 2014 | 02h03

Os fatores que concorreram para esse movimento podem ser identificados tanto do lado da oferta quanto do da demanda. Do lado da demanda, existe a ideia, compartilhada pela Agência Internacional de Energia (AIE), de que o seu crescimento atingiu o limite por causa da fragilidade da economia mundial. A agência estima para 2015 uma expansão de apenas 1,2% no consumo de petróleo no mundo. Não apenas a China, mas também os demais países emergentes sofreram uma desaceleração. E a Europa corre o risco de enfrentar a terceira recessão em seis anos.

Do lado da oferta, podem-se identificar diversos fatores, como o potencial crescimento da produção em diversos países - caso do Brasil, do Canadá e do México -, além de um salto no Iraque e na Líbia pós-Kadafi. Em setembro, os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) registraram o maior nível de produção em 13 meses. Tudo isso sem contar com a elevação da produção de petróleo norte-americana, que cresceu quase 50%, quando se compara 2014 com 2011.

Esse movimento acarreta intensa transferência de renda dos países produtores para os consumidores. Do lado dos produtores, os impactos maiores serão nos países cuja receita do petróleo é essencial para o equilíbrio das contas públicas, como na Venezuela, no Irã e na Rússia, que precisam de um preço do barril acima de US$ 100. A Venezuela, que tem 95% das suas receitas de exportação vinculadas ao petróleo, já fez um pedido de reunião extraordinária para a Opep rediscutir suas metas de produção. Do lado dos importadores, os grandes beneficiados serão a Europa, que pode se aproveitar dos preços mais baixos para minimizar os efeitos da crise, e a China.

No caso dos EUA, a expectativa é de que o efeito seja positivo, mas não tanto quanto no passado, quando o país era mais dependente das importações. Segundo a AIE, as importações de petróleo devem cair a 20% do consumo total em 2015, o menor porcentual desde 1968. Ao analisar o impacto da queda de preços para os EUA, é preciso considerar que a elevação recente da produção vem de campos não convencionais, cujo custo é elevado. Assim, caso o preço do petróleo entre num ciclo de queda, os EUA estarão particularmente vulneráveis a um recuo dos investimentos na exploração e na produção.

Para o Brasil, numa perspectiva de curto prazo, o preço menor do petróleo e de derivados alivia as contas da Petrobrás e a balança comercial. No entanto, no médio prazo, as consequências podem ser negativas. Um preço menor do petróleo compromete o plano de investimentos da Petrobrás, dado que a empresa vai entrar num ciclo de preços de petróleo mais baixos com uma dívida que já atingiu R$ 312 bilhões e grande comprometimento de investimentos em bens de capital (capex). Hoje a dívida da Petrobrás já alcança 4 vezes o seu Ebitda.

O grande responsável pelo crescimento da produção brasileira nos próximos anos serão os campos de pré-sal. Ocorre que, a exemplo dos EUA, o custo de produção dessas reservas é elevado, o que diminui a atratividade para investimentos no Brasil. Durante cinco anos (2008-2013), quando o preço do barril de petróleo estava a mais de US$ 100, o governo não realizou leilões de petróleo. Agora, num ciclo de preços mais baixos, caso queira atrair investidores, o governo precisará rever a sua política intervencionista em pontos como o conteúdo local, o papel da Petrobrás e até mesmo na sua participação no porcentual do lucro do óleo destinado à União.

Sem dúvida teremos pela frente anos difíceis no setor de petróleo no Brasil. E essas dificuldades advindas do comportamento do mercado externo, somadas às do mercado interno, em particular as consequências da Operação Lava Jato, provocarão revisão de metas na produção do pré-sal e sequelas em todos os setores da economia, criando muita capacidade ociosa.

*É DIRETOR DE CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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