Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

'A questão agora é capacidade operacional', diz economista

Para Roberto Padovani, economista-chefe do BV, apesar da demora para agir, governo vem atacando todos os problemas econômicos decorrente da pandemia 

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 11h05

Apesar da demora do governo Jair Bolsonaro para anunciar medidas econômicas que amenizem a crise decorrente da pandemia do coronavírus, o pacote preparado pelo Ministério da Economia deve ser suficiente para contornar a situação, segundo o economista-chefe do banco BV (antigo Banco Votorantim), Roberto Padovani. O grande desafio agora, acrescenta, é tirar as medidas do papel: “A questão é a capacidade operacional”. Segundo ele, outra preocupação no momento não está no Brasil, mas nos Estados Unidos. O alto nível de endividamento das empresas americanas eleva a incerteza e é hoje, depois do próprio coronavírus, a maior ameaça para a economia internacional. “Talvez o risco global maior, além da epidemia, seja a alavancagem das empresas americanas em um contexto de contração aguda da economia.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

As medidas econômicas anunciadas até agora são suficientes? 

Na semana passada, estava muito preocupado porque não via nenhuma ação, enquanto a recomendação internacional era por respostas rápidas e agressivas. Mas, na última sexta-feira, saiu um arsenal de medidas que ataca os três principais problemas. O primeiro é a renda, principalmente dos autônomos e de micro e pequenas empresas. Para contornar isso, o governo está antecipando benefícios, ampliando o Bolsa Família. O segundo problema tem a ver com a situação financeira das empresas. O setor de serviços é muito empregador e, sendo atingido, pode gerar um problema de desemprego alto. O que está sendo feito para atenuar isso é o diferimento de pagamento de impostos e usar a estrutura dos bancos para alcançar esse pessoal, com mitigação de risco feita pelo governo. A terceira questão era manter o canal de crédito funcionando. Você faz isso aumentando a liquidez. O Banco Central liberou compulsórios. Aparentemente, a crise está bem cercada e o volume (do pacote fiscal) é expressivo.

Além de o governo ter demorado para anunciar medidas, grande parte delas ainda está no papel. Isso deve aprofundar a crise?

Até há agora um plano mais robusto. O desafio é encaminhar isso, porque o pacote, no geral, é bom e atende as demandas. A questão é a capacidade operacional. Havia uma dúvida de como fazer o pagamento do auxílio emergencial. Aí decidiram usar o Cadastro Único e quem não tiver o cadastro abre uma conta. Já é alguma coisa mais concreta. Ainda faltam coisas, como a PEC para ampliar o escopo de atuação do Banco Central. Com relação ao tempo, sempre é melhor fazer mais rápido. A lógica desses pacotes de resgate no mundo todo é agir rapidamente durante o confinamento. Supondo que esse confinamento vá até o fim de abril, estamos no tempo para ajudar as empresas, evitar que elas quebrem e evitar um aumento forte do desemprego. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, assumiu, no ano passado, com um projeto econômico que, segundo economistas, não cabe nesse momento de crise. Isso atrapalhou?

Acho que havia dois medos. O primeira era que o governo estivesse sendo tímido e lento na área econômica por razões ideológicas. O que está em jogo agora é fazer com que o Estado resgate a economia. A experiência de 2008 já mostrou para todo mundo que você pode fazer resgates emergenciais em situações específicas e que isso não significa repensar o modelo econômico mais geral ou discutir qual a orientação de política. As medidas anunciadas nos últimos dias no Brasil mostram que o governo está adotando as políticas corretas. A dúvida atual é saber qual vai ser a velocidade de implementação, a capacidade de entrega dessas políticas.

Já é possível analisar isso?

Os instrumentos estão nas mãos do governo e alguns, nas do Congresso. Acho que as lideranças têm claro o papel delas, mas vamos esperar. Das medidas listadas, tenho hoje muito menos dúvida do que tinha há alguns dias.

Economicamente, acha possível manter a quarentena?

Vai ter uma tensão aí entre a recomendação médica e a pressão econômica e política. Talvez a gente não faça o confinamento ideal do ponto de vista médico, mas devemos cumprir o confinamento mínimo obrigatório. Acho que um mês está no radar das pessoas. Se for de dois meses, politicamente pode ser inviável. Aí você vai partir para uma flexibilização, que é na verdade essa polêmica que se tem hoje de confinamento horizontal ou vertical. Não acho que será uma opção da liderança política. Todos vão tentar seguir o que está dando certo no  mundo, que é o confinamento horizontal, até um certo limite, até onde a economia conseguir resistir. A partir do momento em que ela começar a falhar, em que as empresas começarem a quebrar e o desemprego a subir, o desespero vai fazer com que isso se transforme em pressão política. Por isso é importante a ação do governo para dar fôlego para essas empresas atravessarem a quarentena. 

Passado esse período mais crítico, a recuperação deve ser rápida, em forma de V, ou devemos esperar algo mais lento?

É um choque epidemiológico e, portanto, temporário. Pode haver uma segunda onda, como os estudos mostram, mas tudo indica que é um choque temporário. Uma crise bancária gera mais incertezas nesse sentido. Quando o sistema financeiro quebra, não se sabe como o canal de crédito vai andar, as empresas quebram junto e o desemprego sobe. Então, você tem desafios mais duradouros. O desafio agora parece intenso, mas de curto prazo. A segunda questão é que não me lembro de ter visto no Brasil uma intensidade tão forte de estímulos, monetários e fiscais. Na área fiscal, não é que temos um descontrole das contas públicas. Temos um governo aumentando seus gastos deliberadamente como uma política anticíclica muito forte, sem contaminar a expectativa em relação ao futuro. Então, as condições de financiamento da economia são preservadas. Tem também um estímulo monetário intenso, que já vinha acontecendo. Quando você combina a história de um choque temporário com estímulos muito fortes, isso permite que a economia possa se recuperar de uma forma mais rápida.

As empresas americanas estão altamente endividadas. É possível que a crise decorrente do coronavírus gere uma onda de falências por lá, o que, por sua vez, desencadearia uma nova crise global?

Há duas dúvidas no cenários que temos de monitorar. Primeiro, aqui no Brasil, é a capacidade de o governo realmente implementar rapidamente as medidas. Depois, os EUA. As empresas lá estão muito alavancadas. Quando se tem um aumento de aversão ao risco, normalmente os bancos se contraem e aumenta o custo de endividamento das empresas. Aí você pode transformar a contração econômica numa crise financeira, que aliás é o padrão. Acho que foi por conta desse medo que se teve uma reação de política fiscal de proporção também inédita nos EUA. O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) também reduziu os juros e aumentou expressivamente a liquidez. A preocupação existe. Talvez o risco global maior além da epidemia seja a alavancagem das empresas americanas em um contexto de contração aguda da economia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.