Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2015 | 10h49

A queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,2% no primeiro trimestre é apenas o início de uma recessão profunda que o País enfrentará neste ano e que poderá gerar uma retração de 1,5% a 2% em 2015, afirma Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington. Ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ela ponderou que o ajuste fiscal "necessário" mal começou e deve gerar efeitos contracionistas da atividade nos próximos meses. Ela estima que o PIB cairá 0,4% no segundo trimestre, em relação ao primeiro.

Na avaliação da economista, os investimentos não deverão decolar ainda no fim deste ano por causa de alguns elementos, com destaque para a crise política entre o Palácio do Planalto e o Congresso. "Veja o caso de votações importantes de medidas provisórias relativas ao ajuste fiscal. Muitos partidos são contra, inclusive o PT", diz. "Se permanecer esse quadro, as empresas não têm um cenário estável para investir alguns anos à frente no Brasil." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a sra. avaliou o resultado do PIB do primeiro trimestre?

Mais que a queda de 0,2%, na margem, é preciso destacar que ocorreu uma retração de 0,9% no acumulado em quatro trimestres ante os quatro trimestres anteriores. Isso dá uma dimensão da recessão que devemos enfrentar neste ano. Além de uma considerável retração da indústria, também ocorreu uma queda expressiva de serviços, o que explica em boa medida a deterioração no mercado de trabalho no começo deste ano. Em função da perspectiva negativa da economia para 2015, o consumo das famílias também foi bem afetado.

Qual deve ser o desempenho da economia no segundo trimestre e em todo o ano de 2015?

A recessão no Brasil está apenas no começo, e é bem provável que a contração do PIB entre abril e junho seja de 0,4% ante o primeiro trimestre, que já apresentou retração. O ajuste fiscal, que é uma política de correção necessária das contas públicas, ainda mal iniciou seus efeitos sobre o nível de atividade. Como não vejo recuperação da economia no segundo semestre, por causa de uma série de fatores, acredito que o País deverá registrar uma retração entre 1,5% e 2% neste ano.

As concessões públicas que o governo deverá anunciar no dia 9 de junho ajudarão a destravar os investimentos ainda neste ano?

Acho muito difícil. Primeiro, é preciso que elas sejam anunciadas para verificar quais os projetos que estarão no seu conjunto e suas condições, como taxa interna de retorno e clareza de regras. O ambiente econômico e sobretudo político no Brasil não deverá estimular um avanço da Formação Bruta de Capital Fixo ainda neste ano.

Como o ambiente político está influenciando as decisões de investimentos no País, além dos efeitos causados pela apuração da Operação Lava Jato?

Muitos empresários com quem converso, de empresas grandes e multinacionais, observam que há um imenso embate entre os poderes Legislativo e Executivo como não ocorria há muito tempo. E isso traz muitas incertezas, pois não há nenhuma perspectiva de acomodação ou harmonia no curto prazo. Veja o caso de votações importantes de medidas provisórias relativas ao ajuste fiscal proposto pelo governo. Muitos partidos são contra, inclusive o PT, como já mostraram diversos dos seus parlamentares na Câmara e no Senado. O PSDB faz oposição pela oposição, algo sem sentido, o que gerou a votação contrária ao fator previdenciário. Enquanto isso, o apoio do PMDB ao governo apenas ocorre para aproveitar vácuo de poder. A permanecer esse quadro, as empresas não têm um cenário estável para investir alguns anos à frente no Brasil.

Mas as atuais políticas fiscal e monetária não são atenuantes?

É verdade. Mas, embora essas duas áreas do governo tenham melhorado, são políticas de estabilização, apenas para correção de rumos errados adotados nos últimos anos pelo próprio Executivo, apesar de todo o esforço do ministro Joaquim Levy e da diretoria do Banco Central para reduzir a inflação. É preciso fazer mais para que o País saia da recessão e possa crescer o quanto precisa e merece.

E o que o governo deveria fazer para o crescimento voltar a ser sustentável no longo prazo?

Além de um bom avanço das concessões públicas em infraestrutura, é necessário atuar em algumas frentes. Uma delas é a simplificação tributária, com redução de burocracia e do excesso de licenças para que as empresas possam atuar no País. Além disso, é fundamental uma abertura comercial e maior integração com parceiros internacionais, o que inclusive vai elevar a absorção de tecnologias. No Brasil, quando se busca reduzir o emaranhado dos impostos, alguns setores são beneficiados por isenções tributárias, muitas vezes por questões políticas. E, para fazer frente a esses gastos, o governo acaba elevando impostos de importação. Essa lógica é negativa para elevar a competitividade do País.

A sra. defende uma revisão mais radical do papel do BNDES no desenvolvimento do País?

Certamente. O BNDES é uma instituição muito importante para o Brasil, mas sua atuação precisa ser revista rapidamente. Não é possível que 40% da sua carteira de investimentos seja destinada às dez maiores empresas que atuam no País. Defendo que o BNDES tenha um papel firme no apoio a concessões públicas para diminuir os riscos de projetos fundamentais em logística, transporte e energia, com maturação de algumas décadas. E também no papel de liberação de funding para esses projetos. Além disso, é necessário ter uma atuação muito mais firme de fomento à inovação. As pequenas e médias empresas deveriam ter um apoio mais expressivo, com um foco especial para as que têm maior potencial de expansão nos seus respectivos mercados, pois nelas serão gerados empregos de forma mais duradoura.

Como a sra. avalia o potencial do crescimento do País hoje?

Se forem adotadas algumas mudanças importantes, com avanço significativo das concessões em infraestrutura e ações relevantes no segmento tributário e melhora do ambiente de negócios, acredito que poderemos voltar a crescer 2% ao final de 2017. Para avançar mais, entre 3% e 3,5% ao ano a partir daquela data, serão necessárias mudanças estruturais muito mais profundas nas áreas que citei.

Mais conteúdo sobre:
economiapibmonica de bolle

Encontrou algum erro? Entre em contato

MÁRCIA DE CHIARA , O Estado de S.Paulo

31 Maio 2015 | 02h03

A freada no ritmo da economia no primeiro trimestre deste ano afetou o padrão de consumo e os planos tanto das famílias mais abastadas, que trocavam de carro a cada dois anos e viajavam para o exterior com frequência, como daquelas mais pobres, que nos últimos tempos sentiram o gosto de ter alguma folga no orçamento e até começaram a sonhar com a casa própria.

No primeiro trimestre, o consumo das famílias, que responde por cerca de 60% de toda a riqueza gerada no País, caiu 0,9% em relação a igual período de 2014. Foi a primeira retração desde o terceiro trimestre de 2003. A falta de ânimo para o brasileiro ir às compras, estampada na baixa histórica registrada pelos índices de confiança, derrubou o setor de serviços, o que piorou o quadro de estagnação do ritmo de atividade. Entre janeiro e março, o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 0,2% em relação ao trimestre anterior. Na comparação com o mesmo período de 2014, a queda foi maior: 1,6%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Inflação. O consumo, que foi o motor da economia nos últimos anos, começou a ser afetado negativamente por uma combinação de fatores. A escalada da inflação, que em 12 meses gira em torno de 8%, fez com que o brasileiro tivesse menos dinheiro para gastar. Isso porque as pressões se concentraram nas tarifas de energia, água e combustível, que são despesas obrigatórias.

Além disso, para combater a inflação, o Banco Central subiu os juros e acabou encarecendo o crédito, que foi o grande propulsor do consumo nos últimos anos. Mas, com o avanço do desemprego, o quadro se agravou. O medo de ir às compras provocou paradeira no varejo, que exibe hoje retração nas vendas que inclui de veículos a alimentos.

Mais conteúdo sobre:
economiainflaçãoconsumo

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Comprar a casa ficou impossível'

Os aumentos das tarifas de luz, água e combustível ocorridos nos últimos meses afetaram a renda do técnico de segurança do trabalho Roberto Cristiano de Souza e fizeram que ele reduzisse o consumo de outros itens e adiasse planos, como a compra da casa própria. "O meu salário não acompanhou o aumento da inflação", reclama.</p>

O Estado de S.Paulo

31 Maio 2015 | 02h03

Com renda mensal de R$ 2,8 mil, antes do dissídio de 8% que acaba de ser acertado com a empresa, Souza, de 37 anos, que é casado e pai de Davi, passou a comprar menos roupas, diminuiu as idas à lanchonete e começou a pedir menos pizza para comer em casa.

Por precaução, o técnico de segurança do trabalho também passou a usar menos o cartão de crédito para não se endividar. "Não estou inadimplente, mas o medo de perder o emprego todo mundo tem. Se você não for dono ou filho do dono da empresa, pode ser mandado embora."

Além de cortar gastos, o cenário de aperto adiou o sonho de Souza de ter a sua própria casa. "Todo mundo quer comprar uma casa, mas agora ficou impossível porque a Caixa reduziu o valor a ser financiado. Eu pretendia dar entrada no final deste ano, mas agora só Deus sabe", disse", / M.C.

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Antes, só comia filé mignon'

O consultor de marketing Igor Rodrigues, de 39 anos, casado e que acaba de ser pai de gêmeos, mudou radicalmente o seu padrão de vida por causa da crise. "Antes, eu só comia filé mignon. Agora é coxão duro cozido na panela de pressão que, com um bom tempero, fica bem macio."</p>

O Estado de S.Paulo

31 Maio 2015 | 02h03

Ele conta que até o ano passado costumava viajar para Paris todas as férias. Mas, neste ano, a família não vai viajar. "Se o dólar não estivesse tão alto, eu iria para o exterior", diz o consultor, ponderando que os bebês não são impedimento para viagens longas.

Mas o dólar nas alturas também afetou as compras de itens supérfluos. Os vinhos importados, por exemplo, foram substituídos pelos nacionais.

O último corte de despesa ocorreu na semana passada, quando ele demitiu a empregada. "Tive queda na renda e estou cauteloso", explica o consultor. Como a empresa na qual ele trabalha presta muitos serviços para o governo, com o contingenciamento de gastos de publicidade, a sua receita caiu. "Neste mês recebi um quarto do que recebia no passado", conta. A projeção de Rodrigues é que os tempos bicudos durem por mais seis meses. / M.C.

Mais conteúdo sobre:
economiainflaçãoconsumorenda

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.