A recessão passou e ninguém sabe o que fazer

A recessão passou. Se não passou, está passando. É o que disseram, nesta semana, o FMI, a OCDE, o banco central e o secretário do Tesouro dos EUA. Para o governo brasileiro, não há mais dúvida, acabou no segundo trimestre. O PIB deve ter crescido 2%, conforme previsão do IBGE e indicações dos grandes bancos e institutos de pesquisa. Só não vale o Ipea, cujas "análises" tendenciosas e governistas estão desmoralizadas.

Alberto Tamer*, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Então, podemos respirar de novo? O mundo vai voltar a crescer e o desemprego médio de 9,5% nos EUA e na União Europeia vai recuar? Essa é a questão para a qual ainda não há resposta e o FMI e a OCDE sugerem cautela. Por que? Quais são os riscos? Apenas alguns, sim, mas perigosos, dizem eles, mesmo não pensando no Brasil.

AINDA NÃO, AINDA NÃO...

O mais grave foi discutido neste fim de semana entre os ministros de Finanças dos G-20. Todos concordam que a recessão foi contida devido essencialmente ao trilionário estímulo fiscal dos governos, incluindo até a China, que nem foi atingida. Isso e mais outros trilhões injetados no sistema financeiro impediram o caos.

Mas, e quando esse estímulo acabar? Afinal, não pode permanecer por muito mais tempo, sob risco de o endividamento e os déficits dos governos ultrapassarem o grau de credibilidade dos investidores que compram seus títulos. Um dia acaba sob o risco de outro tipo de caos. Nem a China, com reservas cambiais de mais de US$ 1,2 trilhão, poderá continuar financiando déficits crescentes dos países que se endividaram pesadamente, de forma correta, mas perigosa, para superar a recessão. O resultado está aí: menos recessão e mais dívida.

Os ministros reunidos neste fim de semana em Londres têm resposta apenas para um pergunta: a economia mundial pode recair na recessão se o estímulo fiscal acabar ou for reduzido? Sim, pois só o incentivo à demanda explica os últimos resultados.

Eles não têm resposta para a outra pergunta: como a economia vai se comportar quando os impostos voltarem - provavelmente com aumento - e os juros deixarem de ser praticamente negativos? Mais: parece cada vez mais claro que os grandes bancos estão bem capitalizados, mas hesitam ainda em aumentar a oferta de crédito. Temem nova onda de inadimplência. É aí que a roda emperra. Sem mais demanda, por falta de estímulo, sem crédito, por falta de segurança, para aonde vai a economia?

NADA MUDOU

O risco mais grave no curto e médio prazos é o desacordo entre os governos sobre a revisão do sistema financeiro mundial para impedir que tudo volte a acontecer novamente. Após meses de promessas e estudos, não se tem sequer uma ideia aceitável de como agir. No Brasil, sempre se soube: o BC fiscaliza todo o sistema financeiro nacional, indiretamente, até aquela prestação que você paga quando comprar uma televisão. Lá fora, é uma peneira cheia de buracos que se alargaram e inundaram tudo, sufocando a economia. Esse é um desafio seriíssimo, mais deles do que nosso, mas, no futuro, pode nos afetar também.

MESES SOMBRIOS

Eis as as questões não respondidas, eis um cenário menos tumultuado, mas ainda nebuloso para os próximos meses. Certamente, teremos ainda alguns semestres temerosos.

Não estamos pessimistas com o futuro mais próximo e muito menos com o Brasil. Os indicadores mundiais mostram dois fatos positivos e até animadores:

1 - não há mais concentração da retomada em apenas alguns países desenvolvidos, mas em todos, nos EUA, na eurozona e nos emergentes. Foi por isso que o FMI prevê só retração de 1,3% neste ano e expansão de 1,4% no próximo. A OCDE é mais otimista: o PIB dos 30 países da organização cresceu 0,3% no segundo trimestre e crescerá 2% no último trimestre deste ano.

E NÓS? ORA NÓS...

Ora, já saímos disso. Hoje, ninguém mais nega que a recessão acabou no segundo trimestre. Também ninguém nega que o custo relativo (em comparação com outros países) foi baixo. O socorro do governo à economia não passou de 0,5% do PIB, de acordo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, enquanto em outros países se aproximam de 3%. Nós paramos, eles têm de continuar empurrando o mercado. A nossa economia reagiu, a deles, ainda não.

No Brasil, as vendas no comércio aumentam, a poupança cresce e as indústrias começando a repor estoques. Aqui, devemos ter crescido 2% no último trimestre, lá fora, aplaudem entusiasmados porque o PIB cresceu 0,3%.

PALMAS? AINDA NÃO

Vamos bater palmas? Não. Toda euforia prematura leva ao desastre. O sistema financeiro está cada vez mais saudável,temos aí o petróleo do pré-sal com o seu "modelo" eleitoral, temos aí investidores do mundo todo correndo atrás de nós, entram dólares por todos os lados, mas o País sai fragilizado da crise. Não fortalecida, como afirmam Lula e Mantega, mas fraca.

As exportações recuam, o superávit comercial só se sustenta por causa do reajuste dos preços das commodities, que dura pouco, se a economia mundial não reagir. Além disso, o crescimento depende cada vez mais de um mercado interno que vem se expandindo há anos, nos últimos meses, graças aos incentivos, que podem estar perto da exaustão.

E temos aí, para terminar, essa eleição presidencial encharcada de petróleo, que inspira gastos exagerados, que podem por tudo perder. Não é a "maldição" do petróleo, quando mal aproveitado, como afirma Lula, mas a maldição das urnas.

*E mail at@attglobal.net

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