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A recuperação está aí, mas devagar com o andor

O banco central dos Estados Unidos despejou água fria na fervura da animação geral dos mercados

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 18h51

Na quarta-feira 19, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) entendeu que devesse despejar uma caneca de água fria na fervura da animação geral. 

O mercado financeiro mundial vinha numa pegada otimista a respeito da recuperação da economia pós-covid-19 que o Fed entendeu ser exagerada demais. Daí por que decidiu injetar certa dose de tranquilizante.

A pandemia mudou muita coisa. Entre elas, mudou a capacidade dos agentes econômicos de interpretar fatos e tendências com um mínimo de realismo. A maré subiu e os banhistas acabaram perdendo o pé no meio das ondas. 

De todo modo, são claros os sinais de recuperação da economia dos Estados Unidos e da Europa. A da China, então, voltou aos níveis anteriores ao início da pandemia. E, mesmo no Brasil, os números disponíveis são de que o tombo por aqui deverá ser menor do que o imaginado há três meses. A queda do PIB, antes avaliada em alguma coisa em torno dos 6,5%, talvez não passe dos 5,0%, o que não deixa de produzir algum alívio.

Nos lugares em que a resposta sanitária dos governos à pandemia foi mais eficiente, como na China e na Europa, a recuperação é mais consistente. No Brasil, que teve e continua tendo um enfrentamento confuso, a recuperação é mais lenta e convive com mais incertezas.

Por toda a parte, os países do G-20 injetaram, até março, cerca de US$ 5 trilhões nos mercados e os grandes bancos centrais, como o Fed e o Europeu, não menos que US$ 2,6 trilhões. Os dirigentes da área do euro tomaram uma decisão de irrigar seu mercado com um pacote fiscal de € 750 bilhões, dos quais € 390 bilhões não precisam de retorno. Assim, o bloco, que até agora atuava com baixa ou nenhuma solidariedade fiscal, desta vez fez transferências sem precedentes para as economias mais fracas.

Prevalece, também, a sensação de que os maiores estragos produzidos pela pandemia já aconteceram. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já informou que há cerca de 160 iniciativas de vacinas em desenvolvimento, das quais 29 estão em sua última fase de testes. Se sua eficácia for comprovada, como se espera, a maior parte das incertezas que ainda pesam sobre os negócios terá sido debelada. 

Mas esse quadro inegavelmente otimista vinha recebendo uma palheta de tintas mais fortes do que deveria. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por exemplo, foi logo dizendo que é pouco considerar que a recuperação vem desenhada em “V”. “É um super ‘V’”, emendou ele. E essa não parece uma voz isolada.

O Fed julgou necessário lançar um contraponto a tal cenário de empolgação. Lembrou, no principal documento de orientação dos agentes econômicos (a ata do Fomc), de que o desemprego nos Estados Unidos, além de alto (10,2%), deve aumentar ainda mais e advertiu para “riscos potenciais para a estabilidade financeira”. Explicou que um grande número de empresas não financeiras aumentou demais seu endividamento e terá de enfrentar perigo de insolvência. Como seus credores são os bancos, se esse cenário de calotes for relevante, seria inevitável estender esse quadro preocupante também para o setor financeiro, ainda que o Fed tenha acentuado que os bancos estão bem, como mostram os testes de estresse a que vêm sendo submetidos.

A rigor, o recado do Fed não foi muito diferente do que os analistas já vinham dando. A novidade foi apenas a diferença de tom, para além de cauteloso, que prevaleceu no texto oficial. E o tom quase sempre revela mais do que as palavras nuas. 

Aqui no Brasil o pior também pode ter passado. Há certa recuperação no consumo, na atividade produtiva e, até mesmo, na poupança nacional. Os juros nunca foram tão baixos, a inflação desceu a níveis civilizados, as contas externas estão saudáveis. As grandes ameaças estão na forte deterioração das contas públicas (setor onde não se enxerga nenhuma melhora), na falta de investimentos e no desemprego.

Não será com eventual desoneração da folha de pagamentos que haverá reposição dos postos de trabalho. O período de isolamento social, de home office e de aumento das vendas online deverá acentuar a automação e a utilização de tecnologia digital, altamente poupadoras de mão de obra. São fatores que também vêm sendo objeto de advertências do Banco Central do Brasil. E o ministro da Economia, Paulo Guedes, não esconde que, neste país da gastança, a saúde das contas públicas passa por situação muito delicada.

Enfim, não dá para se desfazer da procissão em andamento, mas nunca é demais avisar que o santo é de barro.

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