A recuperação global não espanta as incertezas
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A recuperação global não espanta as incertezas

Apesar das projeções positivas que indicam forte recuperação da economia mundial, mercados, investidores e consumidores externam mais medo do que confiança

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 20h24

Quase todas as análises publicadas por grandes instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e os grandes bancos centrais, celebram a rápida recuperação da economia global e do emprego. E, no entanto, os mercados financeiros se comportam como se o tamanho e o número de incertezas prevalecessem sobre esse desempenho.

Basta uma dúvida manifestada por um diretor do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para que os juros praticados no mercado secundário de títulos disparem e as bolsas enfrentem baixas e turbulências. Há no ar certa insegurança de natureza pouco clara.

Nessas horas, a imunização das pessoas contra a covid-19, o despejo impressionante de nada menos que US$ 25 trilhões no mercado internacional de estímulos fiscais e monetários pelos Tesouros públicos e pelos bancos centrais dos países do G-20, de maneira a ativar o crédito, a produção, o consumo e o emprego não vêm sendo considerados com toda sua importância como instrumentos de superação da crise. Investidores e consumidores externam mais medo do que confiança.

Não se pode, é claro, ignorar determinadas ameaças. A velocidade com que se espalha a variante delta do coronavírus é uma delas. No entanto, o perigo já não é mais o mesmo que havia lá por março e abril do ano passado, quando ainda não se conheciam as vacinas e a situação era de iminência de colapso do sistema nacional de saúde. Os governos podem até decretar a volta ao isolamento social e às quarentenas, mas, a menos que aconteça uma catástrofe hoje fora das telas dos radares, essas medidas defensivas tendem a ser isoladas e a durar por menos tempo.

O desemprego é, sim, problema em importantes economias. Mas não é grave nem nos Estados Unidos nem na China. Mais relevante no âmbito do mercado de mão de obra é o fato de que a recuperação de postos de trabalho não se dará mais aos níveis de antes da pandemia. As empresas vêm operando com menos gente, porque incorporaram mais tecnologia aos seus processos e aprenderam a operar com trabalho a distância (home office e equivalentes). Além disso, o maior emprego em aplicativos de serviços disseminou o trabalho autônomo, que não mais se sujeita a horários e a chefias.

A inflação espocou nos principais mercados porque a pandemia desestruturou os fluxos de suprimento. Todo o setor produtivo vinha operando há anos no regime just in time, em que matérias-primas e produtos intermediários chegavam no momento em que eram necessários nas linhas de produção. Esse sistema dispensou a necessidade de grandes formação de estoques e, por aí, seus altos custos.

A crise paralisou ou atrasou o curso dos navios e de boa parte dos sistemas de cargas e, com isso, o funcionamento dos entrepostos também foi prejudicado. Como a retomada é desigual, a regularização desses fluxos também está sendo desigual. Mas a inflação que decorre do truncamento da oferta tende a ser limitada e não deverá exigir pancadas indiscriminadas de juros por parte dos grandes bancos centrais.

Muitos problemas novos estão para ser  mais bem entendidos e mais bem dimensionados. A questão do mercado de trabalho já mencionada é uma delas. A outra é tudo o que diz respeito às políticas ambientais e de descarbonização. A União Europeia vem impondo medidas unilaterais sobre temas muito abrangentes, como o mercado de carbono, produção de energia elétrica limpa e proibição de veículos a combustíveis fósseis. Não está claro até que ponto esses padrões serão adotados por outras regiões do mundo.

É preciso saber como todas essas coisas se comporão num mundo cada vez mais desigual e mais conectado, que a pandemia tornou ainda mais desigual e mais conectado.

No mais, vêm aí outras grandes e rápidas transformações, como as conexões 5G, as cidades inteligentes, a indústria 4.0, o carro voador e as moedas digitais – que devem mudar a cara da economia, das finanças e do mundo.

Não estaria a humanidade às vésperas de uma nova adolescência que precederá nova idade adulta, o que também explicaria essa insegurança que prevalece sobre a confiança no futuro?

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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