A relação entre as chuvas e o valor do seguro

Os danos causados pela água podem influenciar na alta do preço do seguro, mas num patamar menor do que o índice dos aumentos que já estão ocorrendo

Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Desde janeiro, tem sido comum perguntarem se os danos causados pelas chuvas devem ter algum tipo de influência no aumento do preço do seguro de automóveis.

E a minha resposta tem sido: os danos causados pela água poderão influenciar no aumento do preço do seguro, mas num patamar menor do que o índice médio dos aumentos que já estão acontecendo.

Toda história precisa ter começo, meio e fim.

O que acontece com o preço do seguro de veículos não é exceção, nem se baseia na vontade desenfreada das seguradoras aumentarem seus lucros.

Não que elas não o desejem, apenas a concorrência e a realidade de mercado não o permitem. E é aí que colocar a culpa nas chuvas de verão é um argumento inteligente para disfarçar o que efetivamente está acontecendo, como resultado natural de uma série de fatores e ações desencadeadas nos últimos anos.

Faz tempo que o seguro de veículos, em função da concorrência acirrada, dá um resultado positivo pequeno, quando não prejuízo,

Esse quadro tem sido experimentado por mais de uma seguradora, especialmente nos últimos dois exercícios.

O seguro de automóveis tem como característica o fato de seu giro ser rápido. Quer dizer, a entrada de prêmios acontece numa velocidade impressionante que, se for bem administrada em relação às saídas, permite à seguradora gerar um floating importante, capaz de lhe remunerar de tal forma que a aceitação do seguro pode ser feita com resultado industrial negativo, ou seja, com o preço de suas apólices abaixo do custo real da operação e menores do que os praticados pelo mercado, dando-lhe condições de crescer em cima da concorrência, explorando a política agressiva antes que as outras seguradoras consigam baixar seus preços ou que ela seja obrigada a elevar os seus.

Durante 2007 e 2008, a alta remuneração dos investimentos brasileiros permitiu às seguradoras trabalharem com aceitação negativa, amplamente compensada pela remuneração da aplicação dos prêmios no mercado financeiro. A partir de 2009 este quadro mudou.

Com a redução das taxas de juros pelo Banco Central, a aceitação com resultado industrial negativo passou a ficar mais delicada, já que a queda da remuneração dos investimentos reduziu drasticamente a margem de lucro.

Mesmo assim, em função de movimentos de incorporação, associação e compra de seguradoras com forte participação no ramo de automóveis, algumas das maiores companhias mantiveram a prática, chegando mesmo a baixar mais ainda o preço de suas apólices.

Como ninguém aguenta uma política destas por muito tempo e, além disso, a sinistralidade da carteira continuava alta, fortemente impactada pelos furtos e roubos, no começo do ano chegou a hora de reajustar o preço dos seguros de veículos. Os aumentos ficaram num patamar ao redor de 20% a 25% do que vinha sendo praticado.

Aumentar preço com base em aceitação negativa, recomposição de margens e outros motivos que reforcem a crença de que as seguradoras estão esfolando os segurados é sempre complicado, para não dizer mercadologicamente contraproducente.

Então, as chuvas de verão que caíram, danificaram milhares de veículos, custaram caro para seguradoras com forte produção na cidade de São Paulo, devem custar mais ainda em função das enchentes causadas pelas recentes chuvas no Rio de Janeiro.

O problema vai além. Acima de tudo, devem custar mais para as seguradoras em função do desconhecimento dos mecanismos de mercado, inclusive pela grande imprensa, se transformaram no argumento perfeito para justificar o inexorável aumento de preços.

A carteira de automóveis pagou em 2009 mais de R$ 7 bilhões em indenizações. Supondo que 10 mil veículos tenham sido atingidos pelas chuvas, que todos tenham sido perda total e seu valor médio é de R$ 30 mil, temos um total de R$ 300 milhões em indenizações. Ou seja, menos de 5% do total pago no ano passado.

Por outro lado, os mesmos R$ 7 bilhões aplicados a 17% ao ano significam uma remuneração de quase R$ 1,2 bilhão que cai para R$ 600 milhões com uma taxa de 8.5% ao ano.

Será que as chuvas são as responsáveis pelo aumento de preço do seguro?

É ADVOGADO, SÓCIO E PENTEADO, MENDONÇA ADVOCACIA, PROFESSOR DA FIA-FEA/USP E DO PEC DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS E COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO. E-MAIL: ADVOCACIA@PENTEADOMENDONCA.COM.BR

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