A relevância do Censo Demográfico para retratar a realidade do País

O retrato da nossa sociedade precisa ser atualizado; as transformações sociais exigem a realização do Censo

Roberto Luis Olinto Ramos e Antônio Ribeiro de Oliveira, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 05h00

O Brasil tem vasta experiência na realização de Censos Demográficos. Ainda à época do Império, em 1872, foi realizado o primeiro levantamento dessa natureza. Até 1920, a responsabilidade pela realização do Censo era da Diretoria Geral de Estatística, incumbência transferida ao IBGE em 1940, inaugurando a “era moderna” dos censos. 

Ao longo dos anos, o recenseamento foi a campo 12 vezes buscando retratar a realidade da população nas suas diversas dimensões, sempre em sintonia com as transformações sociais e econômicas que se processavam na sociedade. Assim, além das variáveis tipicamente demográficas, como sexo, idade e cor ou raça, que auxiliam na enumeração e na descrição do perfil etário e étnico/racial, várias outras características foram incorporadas.

Essa ampliação da investigação foi realizada em consonância com as demandas de diferentes níveis de representação social, como governo, movimentos sociais e academia, visando elaborar políticas públicas e prover a sociedade com informações sobre diversos fenômenos.

A evolução não foi apenas temática. Destaque-se a criação da Comissão Consultiva, composta por especialistas nos temas investigados, a qual contribui para a construção dos questionários e das estratégias para a implementação do levantamento. Ressalte-se também que, desde 2000, os municípios contam com comissões locais, que apoiam e acompanham a execução da operação.

Os avanços tecnológicos também foram importantes. Em 2010, os recenseadores utilizaram dispositivos móveis para coletar eletronicamente os dados e 7 mil postos de coleta informatizados, com acesso à internet, foram distribuídos em todos os municípios.

Essa infraestrutura possibilitou agilidade na apuração dos dados e na disseminação das informações.

Num país de dimensões continentais, realizar um Censo Demográfico implica mobilizar “um verdadeiro batalhão” de colaboradores. São cerca de 200 mil recenseadores e 23 mil supervisores espalhados em todos os municípios.

Este panorama permite inferir os desafios e a complexidade de se levar a cabo missão de tal magnitude. Orgulhamo-nos da sua qualidade, que nos coloca entre os principais países com censos de boa reputação.

Os desafios estão colocados. Daqui a dois anos outro Censo estará em campo, retratando mudanças demográficas, sociais, culturais e econômicas em curso na presente década. Tais transformações já se fazem notar e, em muitos aspectos, o Censo Demográfico é o único instrumento para conhecermos essa realidade, como no caso das migrações internas e internacionais, cuja dinâmica passa por transformações importantes no Brasil. 

Cabe salientar que o volume populacional é denominador de diversos indicadores. Municípios e Unidades da Federação necessitam saber o tamanho das populações para que possam receber os Fundos de Participação de Municípios (FPM) e de Estados (FPE); o Ministério da Educação precisa conhecer o número de crianças para repassar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb); quase todas as taxas utilizadas pela área de saúde têm a população no seu denominador. O IBGE, para calcular o PIB per capita, na construção das tábuas de mortalidade, nas projeções populacionais, na atualização das amostras das pesquisas, entre outros, necessita dos números.

Também os órgãos de controle só terão informações para suas ações de monitoramento do uso dos recursos públicos em nível municipal com a realização do Censo. A avaliação das metas do Plano Nacional de Educação e da situação do trabalho infantil e a atualização das cotas municipais do Bolsa Família, por exemplo, necessitam dos dados censitários.

O retrato da nossa sociedade precisa ser atualizado. As mudanças demográficas e geográficas, as transformações sociais, os diferentes cenários econômicos ocorridos na década, bem como as características do federalismo brasileiro exigem a realização do Censo Demográfico. Nossa comunidade de usuários, seja governo, academia ou sociedade civil, já manifesta expectativa pela realização e pelos resultados do próximo censo. 

Para que sigamos retratando o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania, é necessária a mobilização dessa comunidade de usuários, em conjunto com o IBGE, a fim de que o Estado brasileiro garanta os recursos financeiros e humanos para a realização do Censo Demográfico de 2020.

*PRESIDENTE DO IBGE e PESQUISADOR DO IBGE

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