A reputação do BC nunca se torna permanente

O Copom deu partida ao aperto monetário ontem, mas apresentou-o como processo já iniciado; na verdade, se tivesse começado em março, não precisaria dado um salto de 0,75

Gino Olivares, Professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Ontem finalmente o Copom iniciou mais um processo de ajuste na taxa de juros. A novidade foi a apresentação da decisão, no comunicado da reunião, como sendo parte de um processo mais amplo, e já iniciado, de ajuste das condições monetárias. Não deixa de ser verdade, mas não é a história completa.

Nos últimos meses assistimos no Brasil a um episódio que ilustra os potenciais riscos associados à interferência do calendário político nas decisões de política monetária. As aspirações políticas do cidadão Henrique Meirelles eram, e são, absolutamente legítimas. Mas a incerteza associada à sua decisão de se candidatar ou não deveria ter sido resolvida, em qualquer direção, antes da reunião do Copom de março, pelo menos.

Se tivesse sido assim, não teria gerado tanto desconfiança o aparente descompasso entre o diagnóstico que o colegiado fez do cenário econômico e a decisão de adiar o início do ajuste nos juros. De fato, há analistas que acreditam que, sem a incerteza política, aquele descompasso sequer teria existido.

Era óbvio, em março, que esse tipo de especulação surgiria. Criou-se um ruído adicional que poderia ter sido perfeitamente evitado. Talvez isso tenha a ver com o motivo pelo qual o colegiado preferiu não falar agora do "início" de um ciclo de ajuste na taxa de juros, como sempre fez nos movimentos anteriores de aperto monetário durante a muito bem sucedida gestão de Meirelles.

De qualquer forma, tenho certeza de que o Banco Central acabará fazendo o que tem que ser feito para assegurar a convergência da inflação à trajetória das metas. A questão é que vai precisar de um pouco mais de esforço. Para começar, a alta de 0,5 ponto porcentual (posição perdedora, votada por apenas três dos oito membros do comitê) de março transformou-se em elevação de 0,75 (decisão unânime) em abril.

Um outro possível motivo para o BC não mencionar no seu comunicado o início de um processo seria o de não considerar que haveria muito espaço para uma fase longa de aperto, dado o calendário eleitoral. Poderia ser o sinal de um ajuste intenso e rápido. Quando se pensa que, de alguma forma, a aspiração política do presidente do BC pode ter adiado o início do ajuste, não chega a ser absurdo supor que a política em geral influencie as decisões do Copom.

Outro aspecto importante do atual cenário no qual se desenvolve a política monetária brasileira é que, mais uma vez, não haverá a ajuda da política fiscal. Como se sabe, com tudo o mais constante, quanto mais expansionista a gestão fiscal, maior será o ajuste da taxa da juros para atingir o mesmo objetivo de trazer a inflação de volta ao centro da meta.

Um último ponto interessante é sobre recente declaração de Meirelles de que o Banco Central não tinha mais nada a provar. A rigor, isso não é exato, porque a reputação é uma qualidade que se pode sempre ganhar ou perder (e perde-se mais rápido do que se ganha). Uma vez conquistada, a reputação jamais se torna permanente. Um caso clássico é o do Chile em 2008. A inflação começou a se descolar da meta, e o BC chileno fez pouco, fiando-se na sua credibilidade. No final das contas, o aumento de juros acabou sendo muito maior do que o imaginado.

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