A resistência da inflação

A resistência da inflação

A principal causa da alta dos preços no Brasil é a gastança do governo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2016 | 21h00

A inflação ficou mais baixa em agosto: 0,44%. Em julho, ficara no 0,52%. Incorporada essa variação de agosto, a inflação acumulada no ano chegou a 5,42% e a acumulada no período de 12 meses terminado em agosto, a 8,97%. Ainda são números altos demais.

Ou seja, a inflação não dá descanso. E isso não fica claro apenas pela frieza das estatísticas. Por trás delas, há indicações de resistências demais dos preços.

Embora mais baixa, a inflação dos alimentos, que havia sido provocada por adversidades climáticas, continua mais alta do que o esperado. Também não se vê firmeza baixista no setor de serviços – apesar da queda de renda, da retração do consumo e da recessão que continua aí.

Há, também, a persistência de alta no chamado núcleo da inflação. Simplificadamente, núcleo da inflação é a parcela dos preços não exposta a variações inesperadas, como encarecimento das verduras quando chove de menos ou chove demais.

E, finalmente, há o índice de difusão, por meio do qual a gente fica sabendo quantos itens da cesta de consumo aumentaram de preço no período. Em agosto, o índice de difusão voltou a aumentar. Fora de 59,5% em julho e passou a 63,5% em agosto. É outro sinal de que a inflação ficou mais espalhada e, portanto, mais persistente.

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) o Banco Central já deixara claro – e isso a gente ficou sabendo pela ata, divulgada terça-feira – que não se deve esperar pela baixa dos juros básicos (Selic) enquanto não forem cumpridas três condições: recuo do choque da alta dos alimentos; consistência da velocidade da queda da inflação; e encaminhamento sólido do saneamento das contas públicas (ajuste fiscal).

Pelo que se viu dos números da inflação divulgados nesta sexta-feira e pelo que se vê da política fiscal, essas condições não estão dadas. E isso sugere que ainda não dá para contar com o início da operação de redução dos juros.

Tem gente que olha para essa resistência dos preços e sai apregoando que a política de combate à inflação com os juros na lua só funciona nos livros. Essa percepção não deixa de fazer algum sentido, desde que se veja o elefante inteiro e não só a tromba dele.

A principal causa da inflação no Brasil é a desordem das contas públicas, é o governo gastando muito mais do que arrecada. Quando as injeções de dinheiro na economia crescem mais do que o volume de mercadorias e serviços, o resultado é inflação. Vista por esse lado, a inflação outra coisa não é senão a moeda perdendo valor a ponto de ser necessário cada vez mais moeda para comprar a mesma coisa.

Assim, temos uma brutal contradição, que é a política fiscal trombando com a política monetária: o governo injeta dinheiro quando paga uma enormidade em despesas e o Banco Central fica enxugando gelo, ou seja, vai retirando dinheiro da economia, mas em proporção mais baixa do que entra.

O resultado desse jogo é goleada para a política fiscal e, evidentemente, é essa inflação aí, de 9% em 12 meses, que demora demais para baixar.

CONFIRA:

Aí está a evolução da inflação dos alimentos e dos serviços.

FGTS sem mexida

Em nota oficial, o Ministério da Fazenda esclarece que “não há qualquer determinação em propor qualquer tipo de reforma ou alteração nas regras do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço”. Assim espera ter respondido às dúvidas expostas na Coluna desta sexta-feira (“Mexida no FGTS?”).

O Ministério esclarece, também, que se destina apenas a debate interno o estudo que o Tesouro pretende contratar às Nações Unidas sobre o FGTS e outros assuntos.

 

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