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A resposta comedida de Bernanke

No momento em que os mercados financeiros mundiais viviam uma agitação angustiante e os mercados domésticos de hipotecas e muitos outros tipos de dívida se paralisavam, Wall Street implorava para Ben Bernanke e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fazerem algo a respeito.Sexta-feira, eles fizeram. Wall Street se rejubilou quando o Fed cortou o juro sobre empréstimos interbancários e indicou que faria o que fosse preciso para proteger a economia dos problemas nos mercados.Mas o Fed, presidido por Bernanke, não foi tão desprendido antes da sexta-feira quanto a sabedoria convencional sugeria, e agora não se mostra tão ansioso para adotar medidas drásticas quanto alguns investidores parecem esperar, disseram observadores atentos ao banco central. As medidas de sexta-feira foram cortadas na medida, e pararam muito antes de usar todas as ferramentas do arsenal do Fed para aliviar a crise, como baixar a taxa básica de juro que baratearia a captação de empréstimos por consumidores e empresas.As ações do Fed, segundo analistas de mercado e amigos de longa data do presidente do banco, são consistentes com o Bernanke que conhecem: cauteloso, cerebral e pouco inclinado a reagir ao rumor e à especulação, algumas das principais exportações de Wall Street.''''Ele não quer agir precipitadamente e não muda seu ponto de vista com evidências fugazes'''', disse Alan S. Blinder, um economista de Princeton e ex-vice-presidente do Fed que conhece Bernanke há anos. ''''Ele quer ver evidências reais antes de mudar de opinião sobre a economia.'''' Bernanke está apostando em que os elementos básicos da economia americana estão fortes o suficiente para suportar os danos. No seu entender, se ele houvesse feito mais para cuidar mais cedo dos receios de Wall Street, isso teria tido o efeito de salvar pessoas que haviam feito apostas ruins e poderia ter piorado a crise. Fundamentalmente, Bernanke não espera que os altos e baixos dos mercados financeiros aleijem o que economistas chamam de a ''''economia real'''' - as decisões de empresas de expandir e contratar, por exemplo.Se ele estiver certo e os EUA não estiverem sofrendo nenhuma recessão econômica significativa do trauma recente nos mercados, ele provavelmente será louvado por sua resposta equilibrada. Isso poderá lhe valer até um pouco da mística de que seu antecessor, Alan Greenspan, desfrutava.Se estiver errado e a nação entrar em recessão, ele será ''''um presidente de Fed de um mandato'''', como colocou o economista-chefe da agência Standard & Poor''''s, David Wyss.Durante duas semanas, os murmuradores de Wall Street acusaram Bernanke de não fazer o suficiente para estancar os problemas. E num videoclipe visto mais de 180 mil vezes no YouTube, o hiperbólico comentarista do mercado Jim Cramer grita que Bernanke não entende o quanto as coisas ficaram ruins.Em grande parte, a resposta do reservado acadêmico de carreira foi o silêncio. Bernanke não fez discursos e manteve um perfil público em meio ao tumulto. Nos bastidores, ele estava reunindo informações de membros da diretoria do Fed, contatos de Wall Street e um amplo leque de outras fontes. Seus principais colaboradores para tratar da crise foram o vice-presidente Donald L. Kohn e Timothy F. Geithner, presidente do Fed de Nova York.Na sede de mármore branco do Fed na Constitution Avenue NW, membros da diretoria realizaram várias videoconferências diárias com participantes do mercado. Bernanke enviou e-mails periódicos a consultores de ponta, estudando as maneiras como o Fed poderia responder. Depois de ventilar várias idéias nas duas últimas semanas, os membros do comitê de política do Fed decidiram rapidamente, na quinta-feira à noite, sobre os anúncios a fazer na sexta-feira de manhã.''''A seqüência de ações do Fed se encaixa perfeitamente no que eu esperaria com base no que a comunidade de acadêmicos, dirigentes de bancos centrais e historiadores de economia acreditam'''', disse Marvin Goodfriend, um economista que contribuiu para um livro editado por Bernanke.Da maneira como muitos participantes do mercado financeiro o vêem, o background de Bernanke em educação superior - ele passou a maior parte de sua carreira em Princeton e trabalhou também na Casa Branca e anteriormente no Fed - o deixa menos sintonizado com os mercados financeiros do que Greenspan era.''''O Fed de Bernanke parece muito mais acadêmico'''', disse Diane Swonk, economista-chefe da Mesirow Financial em Chicago. ''''Há menos pessoas do mercado por lá agora.'''' De outro lado, Bernanke passou uma carreira estudando como dirigentes de bancos centrais devem reagir a crises. Ele está entre os mais destacados estudiosos da Grande Depressão, um período em que o Fed falhou miseravelmente na previsão do colapso da economia do país.Greenspan tornou-se um herói para os mercados em 1987 , dois meses depois de se tornar presidente do Fed, por sua resposta ao crash do mercado acionário. Greenspan garantiu que o Fed proporcionaria liquidez na esteira do crash, e as ações logo se recuperaram.Bernanke está tentando equilibrar dois interesses competidores. Se não fizer o suficiente para acalmar os mercados, as empresas poderão segurar a compra de equipamentos. Os consumidores poderiam conter seus gastos. O crescimento econômico desaceleraria.Mas existe também o risco de fazer demais para acalmar os mercados. Se Bernanke agir com excesso de agressividade, isso pode resultar na salvação de pessoas que fizeram apostas ruins, como as que emitiram hipotecas para tomadores que não poderiam arcar com elas. Isso pode encorajar investidores no futuro a assumir mais riscos irresponsáveis, um problema que os economistas chamam de ''''risco moral.''''Se o Fed baixar sua principal taxa de juro na reunião de 18 de setembro ou antes, como muitos apostam, isso indicaria que Bernanke e seus colegas acreditam que a primeira questão, a ameaça ao crescimento, se tornou a preocupação maior. ''''Se a situação exigir, eles sabem que têm de proteger o funcionamento suave dos mercados financeiros'''', disse Wyss, da Standard & Poor''''s. ''''Digam o que disserem de o Fed ter de se concentrar na inflação, se eles não mantiverem o controle sobre os mercados financeiros, não terão nenhum controle sobre a economia tampouco.''''*Neil Irwin escreve para o ''''The Washington Post ''''

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