A resposta tardia, mas não falha, do mercado de trabalho

ANÁLISE: Rodrigo Leandro de Moura*

O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2015 | 02h06

O mercado de trabalho costuma responder de forma defasada às mudanças na atividade econômica. Assim, após um longo período de baixo crescimento, a resposta veio. Tardia sim, mas não falha. Essa demora pode ser atribuída, em parte, aos pacotes de estímulos anticíclicos que o governo vem oferecendo para tentar manter elevada a demanda por trabalho pelas empresas, como a desoneração da folha salarial, e, portanto, um desemprego baixo, mas este à custa de uma inflação mais elevada.

Assim, com o provável crescimento nulo registrado em 2014, aliado à expectativa de crescimento negativo para este ano - por causa do ajuste fiscal, elevação dos juros e repasse de preços de energia e combustíveis -, as empresas não tiveram alternativa a não ser demitir trabalhadores. Ou seja, a elevação da taxa de desemprego registrada em janeiro foi devida quase que exclusivamente ao aumento da população desocupada.

O que esperar para os próximos meses? Infelizmente mais demissões, que antes estavam reprimidas. Com mais pessoas desempregadas, o poder de barganha dos trabalhadores nas negociações salariais deve diminuir. Com isso, os reajustes salariais devem ser menores, imprimindo às famílias um choque negativo, tanto de emprego como de renda. Essa piora de cenário deve levar mais pessoas a procurarem vagas - as quais se tornarão cada vez mais escassas - pressionando ainda mais o desemprego.

Como esperado, os setores mais afetados foram os da indústria e da construção - o primeiro por causa do aumento de custos do trabalho e da energia e o segundo devido à desaceleração das vendas. O setor de serviços ainda mantém as contratações, mas dado o seu pífio desempenho no ano passado e a piora esperada na renda do trabalho para este ano, é provável que não sobre nenhum setor de pé até o fim de 2015.

*Rodrigo Leandro de Moura, pesquisador da área de Mercado de Trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV)

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