A retomada da expansão latina

Empresas brasileiras de tecnologia ampliam presença na região, uma década depois da bolha da internet

Renato Cruz, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2011 | 00h00

O mito da empresa latino-americana de tecnologia surgiu durante a primeira bolha da internet, que estourou em abril de 2000. As startups abriam freneticamente escritórios pela região, porque assim ficava mais fácil vender seus projetos para os investidores americanos, que tinham dificuldade em enxergar potencial num único país.

A StarMedia, do uruguaio Fernando Espuelas, conseguiu abrir o capital na bolsa eletrônica Nasdaq, nos Estados Unidos, e captar mais de US$ 500 milhões, antes de desaparecer na explosão da bolha. O MercadoLivre, do argentino Marcos Galperin, é provavelmente a única sobrevivente dessa época que conseguiu concretizar o conceito. Os brasileiros que tentaram tiveram de fazer um movimento de recuo, voltando a se concentrar no mercado original, ou acabaram sumindo.

Mas o mundo mudou. O setor de tecnologia tornou-se quente de novo. O Brasil virou o queridinho dos mercados, e as empresas brasileiras já não precisam se fantasiar de latinas para atrair dólares. O movimento de se tornar latino, no entanto, vem sendo retomado. O que acontece?

Paulo Humberg é um pioneiro da internet brasileira. Ele fundou o site de leilões Lokau e a loja virtual Shoptime, que foram vendidos. Atualmente, está à frente do clube de compras BrandsClub.

"Hoje, as empresas vão para outros países porque faz sentido econômico", explicou, sobre a retomada da internacionalização. "Existe uma diluição do risco no longo prazo. Naquela época, era como um jogo de War, de ocupar territórios para conseguir valorização e levantar dinheiro."

O Brandsclub completou um ano de presença no México, e tem planos para a Argentina e a Colômbia em 2012. "Surgiu a oportunidade com um sócio mexicano, e pareceu fazer sentido", disse Humberg. "Conseguimos fazer parte da tecnologia e do marketing a partir do Brasil." A expectativa é que, em cinco anos, 30% do faturamento da companhia venha de fora.

Humberg também é investidor no ClickOn, um dos três maiores sites de compras coletivas do País. O ClickOn está há três meses na Argentina e prepara suas operações no Chile, Colômbia e Peru.

"Em um mês vamos estrear no Chile", afirmou Marcelo Macedo, presidente do ClickOn. "Espero que, até o fim do ano, consigamos 15% do nosso faturamento em outros países."

Diferentemente do Brandsclub, que vende produtos e é responsável por enviá-los ao consumidor, o ClickOn é basicamente uma empresa de serviços, que divulga promoções para sua base de clientes e comercializa cupons eletrônicos. O importante para a empresa é estar em cidades com uma boa base de consumidores. "Buenos Aires é mais atrativa que, sem demérito nenhum, Rio Branco", afirmou Macedo. Além disso, tem uma questão logística. "É mais fácil viajar de São Paulo a Buenos Aires que a Rio Branco."

Potencial. O site de comparação de preços BuscaPé começou a acelerar sua internacionalização há um ano e meio. "Naquela época, tínhamos 15 pessoas fora do Brasil", disse Romero Rodrigues, presidente do BuscaPé. "Hoje, são 200."

A empresa tem escritórios no México, Chile, Argentina e Colômbia, e a partir deles opera em quase toda a América Latina. "Só não estamos nas Guianas e em alguns países da América Central."

Para Rodrigues, um dos principais erros que podem ser cometidos nesse movimento para o mercado latino-americano é achar que basta traduzir o produto para o espanhol. "As culturas de cada país são muito diferentes", alertou.

A Automatos, empresa de software para gestão de infraestrutura de tecnologia, abriu no ano passado um escritório em Miami. A partir dele, começou a olhar com mais cuidado o mercado latino-americano.

"A Automatos já vende para os países da região há bastante tempo", disse Moyses Rodrigues, presidente da Automatos. "Estamos avaliando aquisições no Peru, no Chile e na Colômbia. O crescimento da América Latina vai puxar o crescimento da Automatos."

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