A retomada do crédito

Um importante indicador do quanto a economia brasileira já se recuperou da crise global é a taxa de crescimento do crédito bancário, mesmo se deduzida da inflação, que alcançou a casa dos dois dígitos no 1.º trimestre. O crédito ao consumo já cresce a um ritmo mais de duas vezes superior ao do PIB. Ainda que modesta, se comparada ao período pré-crise (crescimento cinco vezes superior), a tendência à aceleração é clara.

Luís Antônio V. Catão, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2010 | 00h00

Tal aceleração do crédito enseja dilemas importantes para o manejo da política econômica, suscitando, de imediato, dois riscos. O primeiro é o inflacionário. Com efeito, o crescimento do crédito alimenta o consumo, que por sua vez alimenta a inflação. Dado que as previsões de inflação ao consumidor para 2010 já estão acima do centro da meta do governo (4,5%), uma aceleração do crédito acima do previsto exacerba o quadro inflacionário. Em trabalho conjunto com o econometrista Adrian Pagan, mostramos que o efeito inflacionário do excesso de crédito pode ser considerável. O outro risco é o de degradação da carteira dos bancos. A história mostra que o risco creditício tende a ser subestimado em períodos de excessivo crescimento do crédito. Tal underpricing do risco torna os bancos e outros intermediários mais propícios a emprestar a tomadores menos idôneos e a projetos insolventes. Não é casual que as grandes crises financeiras do passado recente tenham sido precedidas por prolongados períodos de taxas de juros reais baixas e/ou negativas e de uma expansão creditícia superior ao crescimento do PIB. O fato de essa expansão advir de crédito concedido por bancos públicos - cuja importância no País ainda é muito grande - não faz o risco menos grave, já que o ônus de recapitalizar os bancos recairia sobre o governo e os contribuintes. Por outro lado, é importante reconhecer que o desenvolvimento financeiro associado à expansão creditícia tem efeitos benéficos: fomenta o emprego formal e reduz a informalidade, trazendo melhores condições de trabalho, aumento da produtividade e da arrecadação tributária. Como no Brasil a razão crédito/PIB é menos da metade da dos países avançados, há espaço para o crédito crescer a taxas bem superiores às do PIB. A chave é evitar exageros e manter um ritmo sustentável.

Tal tensão entre os benefícios e riscos oriundos de um crescimento rápido do crédito recomenda uma combinação de prudência e responsabilidades compartidas na política econômica. Manter a inflação próxima a 4,5% e um sistema financeiro saudável não são objetivos exclusivos do Banco Central (BC), mas da administração pública como um todo. Ambos os objetivos são cruciais para minimizar o risco de crises financeiras futuras e assegurar o crescimento econômico duradouro. Na medida em que a expansão do gasto e do crédito público empurram o crescimento do crédito total na economia, dosar tal expansão se constitui num importante instrumento de controle. Deixar a política monetária sobrecarregada com essa tarefa pode ter efeitos colaterais como o aumento do custo da dívida pública e a apreciação adicional do real, resultando na deterioração das contas externas.

Portanto, a política fiscal e a parafiscal via bancos públicos deve contribuir para que não se deságue em um precoce superaquecimento da economia e pressões inflacionárias adicionais via expansão creditícia. Ainda que ao BC tenha sido dado o mandato de manter a inflação dentro da meta do governo e de supervisar o sistema financeiro, não é macroeconomicamente eficiente que a política fiscal e a parafiscal dificultem tal tarefa. Assim como a expansão fiscal e a parafiscal contribuíram para atenuar os efeitos da crise financeira no Brasil, começa a chegar o momento de que essas políticas sejam contracíclicas ao revés. Nesse sentido, a reversão gradual do quadro de expansão do gasto público deveria ser um tema-chave no debate público, assim como o é nos países avançados e em alguns dos emergentes. O fato de este ser um ano eleitoral pode conspirar contra tal ideal, mas certamente não minimiza a sua importância.

É ECONOMISTA DO BID E DO FMI.

(ESTE É UM ARTIGO DE OPINIÃO PESSOAL

E NÃO NECESSARIAMENTE REFLETE AS OPINIÕES DO BID OU DO FMI)

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