Imagem José Roberto Mendonça de Barros
Colunista
José Roberto Mendonça de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A retomada global está perdendo o brilho

A simples ameaça do anúncio da data de início das reduções das compras de papéis no mercado já produziu nesta semana a elevação dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano para a faixa de 1,5%

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 04h30

Vivemos dias difíceis em todas as frentes. No plano internacional, é possível que se avizinhe uma crise na área de energia. Ela decorre do efeito conjunto da rápida recuperação do PIB global, da tentativa de se usar menos carvão nas térmicas por razões ambientais (com a consequente pressão no curto prazo sobre os preços do gás natural), das hoje conhecidas dificuldades nas cadeias de suprimento globais (que também afetam o setor de energéticos) e dos efeitos dos distúrbios climáticos globais. Por exemplo, a seca no Brasil, que vem limitando a produção de hidroeletricidade, resulta na mobilização das térmicas, o que, por sua vez, pressiona a importação de gás natural e outros combustíveis. 

Ao mesmo tempo, chegou a hora da verdade do início da normalização da política monetária nos Estados Unidos. A despeito de toda a cautela do Fed, este é um movimento delicado numa economia gigante, muito alavancada financeiramente e que tem vivido uma apreciável piora nas condições financeiras. A simples ameaça do anúncio da data de início das reduções das compras de papéis no mercado já produziu nesta semana a elevação dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano para a faixa de 1,5% e um momento bem feio nas Bolsas.

Uma terceira fonte de grandes preocupações são alterações na frente geopolítica, que levaram os Estados Unidos e a Inglaterra ao surpreendente anúncio do fornecimento de submarinos nucleares, com transferência de tecnologia, para a Austrália. Na mesma direção, esperam-se possíveis acordos entre Estados Unidos, Japão e Índia. 

Finalmente, algo surpreendente ocorre na China. Pela primeira vez, em décadas, o governo central vem realizando sucessivas intervenções em empresas, por razões de ordem política, ao contrário dos períodos anteriores, quando a prioridade absoluta era dar suporte ao crescimento acelerado. Além disso, objetivos de longo prazo estão prevalecendo sobre o curto prazo e incluindo, pela primeira vez, preocupações com o meio ambiente. 

As mais importantes ações dos últimos meses na China começaram com a restrição da atividade de gigantes de TI (como Jack Ma, do Alibaba) e as que têm ações nos Estados Unidos. Entre outros objetivos, o governo chinês não quer que a juventude passe horas a fio no mundo digital, de games, filmes e redes. O governo também proibiu transações com bitcoins e a mineração da moeda, que usa muita energia. Houve ainda a adoção de fortes limitações nas emissões de CO2 da indústria, o que está restringindo a produção em segmentos como siderurgia, cimento, vidro e químicos. Vai aumentar a pressão sobre muitas cadeias de produção, como defensivos e fertilizantes, com reflexos relevantes no Brasil. E há ainda uma grande pressão em todas as fontes energéticas, elevando seu custo.

A China também vem tentando contrair o setor de construção, que representa 25% do PIB. Já há meses existem limitações para a tomada de crédito para o desenvolvimento de novos projetos imobiliários. O caso da Evergrande (que deve US$ 300 bilhões) é o mais claro, mas não é o único no setor. A dúvida: o governo vai deixar a empresa quebrar? Acreditamos que o governo não vai permitir a ocorrência de uma crise bancária, mas pode deixar ocorrer uma grande crise em várias empresas e perdas nos mercados de capitais privados. 

Ainda não sabemos qual a redução adicional no crescimento chinês decorrente dos pontos anteriormente citados. Mas, a continuar nessa tendência, será significativa. O crescimento deste ano já está dado e será robusto, da ordem de 8%. Mas, para 2022, não é fora de propósito pensarmos em 5%.

Qual será o impacto em países como o Brasil? 

* * * * *

Do BDM Light: 

“Guedes ataca economistas brasileiros: têm treinamento deficiente em equilíbrio geral. 

Nosso plano é claro, quem critica não está entendendo nada do que está ocorrendo.”

Como está na moda dizer, nada é tão ruim que não possa piorar. 

Tudo o que sabemos sobre:
economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.