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A reunião do G-20 e o enigma chamado Donald Trump

A questão que deve dominar os debates em Buenos Aires será a tensão comercial entre os dois colossos, o do americano Trump e o do chinês Xi Jinping

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2018 | 18h45

Começa na sexta-feira, 30, em Buenos Aires o G-20, o encontro internacional mais importante porque reúne os dirigentes dos vinte países mais poderosos do mundo. Uma razão suficiente para que todos os convidados busquem adivinhar se o planeta sairá desse "conclave" mais dividido do que antes, ou mais alegre e mais pacífico.

Este ano, a arte da previsão política não será simples, porque entre os vinte "convidados" figura um enigma, Donald Trump. O presidente americano não se furta a qualquer capricho, subterfúgio ou provocação. E pode muito bem "virar a mesa" como também saudar com grandes abraços cada um. É deste modo que ele pratica a arte de governar: como um enigma divertido.

As pessoas dizem que Trump é tão indecifrável que ele próprio se surpreende com o que declara. Não sabe mesmo se o que sai da sua boca é para a guerra ou a paz. Claro que isto não é verdade. Trump sabe exatamente aonde quer chegar. E é o único que sabe.

A questão que deve dominar os debates será a tensão comercial entre os dois colossos, o do americano Trump e o do chinês Xi Jinping. Podemos falar de um duelo, isto porque o problema que existia há dez anos foi solucionado. A China é a potência econômica deste século. Irá ela superar os Estados Unidos, e quando?

Certezas não existem. Nem mesmo os economistas sabem dizer se a China tem um PIB (Produto Interno Bruto) superior ao dos Estados Unidos ou não. De acordo com o tipo de cálculo feito o primeiro lugar pertence às vezes a um, outras vezes a outro. Em compensação, desde 2010 a China é a primeira potência comercial do planeta.

Seus avanços são tão fulgurantes que é difícil acompanhar. De repente vimos que o país possui tecnologias iguais às dos Estados Unidos. E tem  o equivalente de companhias gigantes de tecnologia, como Alibaba, Tencent ou Baidu. No caso de um dos grandes sonhos do nosso século, a inteligência artificial, ela supera talvez todos os seus concorrentes.

Enquanto os EUA de Trump tendem a se isolar, travando uma guerra contra a liberdade do comércio, Pequim pensa primeiramente em termos planetários. Trump tem uma ideia fixa: "América em primeiro lugar". Pequim, por outro lado, se lançou num projeto de extrema ambição, a chamada iniciativa "Um Cinturão, Uma Rota", abrangendo um imenso canteiro de infraestruturas e envolvendo mais de dez países.

Uma iniciativa que poderia ser comparada ao Plano Marshall, promovido pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial em benefício da Europa demolida, e também dos Estados Unidos e do mundo.O que sabemos das visões de Xi Jinping nos faz imaginar um plano dez ou doze vezes mais ambicioso do que o Plano Marshall.

Decididamente favorável ao intercâmbio comercial entre as nações, Pequim lançou um programa de livre comércio asiático, sem deixar de intervir ao mesmo tempo no espaço militar que o cerca, em particular no mar da China meridional.

No momento, no braço de ferro entre os dois gigantes, Trump privilegia o desafio, a provocação, o mau humor e a ofensiva, ao passo que Xi Jinping é mais prudente, mais reservado. Qual será o resultado deste G-20?

Em 18 de novembro, a reunião de cúpula da Ásia do Pacífico, em Nova Guiné,  foi encerrada sem um comunicado final uma vez que chineses e americanos não encontraram uma fórmula que fosse conveniente a ambos os países. Em junho ocorreu o encontro do G-7 em Charlevoix, no Canadá. Tudo correu bem, mas no seu retorno, ainda no avião,  Trump decidiu de repente retirar sua assinatura e seu apoio ao comunicado final. / Tradução de Terezinha Martino

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